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Mídia: Eike, a celebração do ritual do linchamento

Luis Nassif Online

Eike, a celebração do ritual do linchamento

O linchamento, moral ou físico, é ritual tão antigo quanto a civilização. A crucificação de Cristo foi celebrada. É o momento em que o pequeno pode atingir o grande, em que o anônimo se vinga dos célebres, o medíocre consegue seu momento de destaque. E todos se igualam, se democratizam na forma de manifestação ancestral: o ato de devorar a alma do inimigo, que pode ser qualquer um que as circunstâncias colocam do lado errado da onda.

Por isso mesmo, os shows mais estridentes de linchamento são aqueles direcionados contra celebridades, políticos, artistas, empresários, especialmente se acusado de corrupção. É muito mais saboroso do que o linchamento físico de um ladrão anônimo.

Nesses momentos, ocorre a grande catarse nacional, o país dividido se irmana, pobres e ricos na grande corrente prá frente Brasil, tendo em comum o riso sádico, o sangue escorrendo do canto da boca, a justificativa para sua vida medíocre.

O jornalismo é o exercício do caráter, dizia Cláudio Abramo. Conhece-se uma imprensa pela maneira como se comporta ante o linchamento.

Em países civilizados, a chamada imprensa de opinião, aquela que fiscaliza os grandes temas nacionais, pode ser mais conservadora ou progressista, pode se dividir entre liberalismo econômico e Estado social, pode apoiar o partido conservador ou o liberal. Mas tem em comum regras de conduta de comportamento à altura de seu público.

1.    Bater em adversário caído é covardia. Na sociedade do espetáculo não há cena mais significativa do que a de Mohamed Ali evitando o último soco sobre um George Foreman que desabava.

https://m.youtube.com/watch?v=bVseoF1-p3M

2.    Há sempre espaço para o belo gesto, o gesto de solidariedade para com a desgraça que recai sobre um adversário ou o reconhecimento de uma injustiça flagrante contra terceiros. Permanecerá para sempre nas retinas de quem viu, o gesto dos jogadores do Ajax. Depois de marcar um gol inadvertidamente no adversário, em uma devolução de bola, todos os jogadores do Ajax ficam imóveis na saída de bola do adversário, permitindo o gol de empate.

https://www.youtube.com/watch?v=jPk-wmqP5ec 

Em outros tempos, testemunhei alguns belos gestos na velha imprensa, como a defesa que os Mesquita faziam de seus jornalistas perseguidos pela ditadura.

Esses resquícios de nobreza desapareceram completamente do jornalismo brasileiro. O uso continuado do jornalismo de esgoto moldou definitivamente o caráter da mídia pátria. O linchamento se tornou peça central de qualquer cobertura, o momento de catarse, a explosão da audiência. A mesquinharia, a parcialidade ostensiva, a grosseria diária modelaram o caráter da mídia.

Um jornal é a explicitação do caráter de seus proprietários.

Com a Globo perseguindo durante o dia inteiro Eike Batista, disputando imagens dele com a cabeça raspada, levantando o que ele comeu na viagem, detalhando as condições da prisão, com colunistas de vários jornais, revistas desancando o sujeito que, quando bem-sucedido, era o mais paparicado personagem da mídia, pergunto: qual a diferença entre o caráter dos Marinhos e das senhoras que se postaram em frente ao Sírio Libanês com cartazes contra Dona Mariza? Apenas uma: as senhoras eram toscas demais para o exercício da hipocrisia.

Não se trata da inevitabilidade do conservadorismo político. Trata-se de baixo nível.

Eike Batista aceitou a piscadela do Diabo, por Sidney Rezende

Jornal GGN – Em artigo publicado nesta terça (31), Sidney Rezende compara o enredo em que Eike Batista foi inserido em função da Lava Jato ao filme “Advogado do Diabo”. Na obra, o protagonista, vaidoso, se deixa seduzir por propostas feitas pelo diabo.

No caso de Eike, que tem destruído tudo em que encosta o dedo, a prisão seria uma maneira de colocá-lo de volta no centro das atenções – principalmente com parte da mídia tratando Eike como vítima de um sistema criado por políticos para achincalhar empresários. Eike “aceitou a piscadela do Diabo, e o Diabo fez a parte dele. Só saberemos a contrapartida do empresário após o seu primeiro depoimento.

Por Sidney Rezende

Eike Batista aceitou a piscadela do Diabo

Eike Batista não é de carne e osso.

A dúvida é se ele saiu das páginas de um conto de fadas tipo “pobre menino rico” ou se ele é um personagem de cinema interagindo conosco como se fosse um de nós. Sei lá, a tecnologia anda tão avançada…

Mortal, como nós, ele não é. É melhor aceitarmos as coisas desta forma. Dói menos.

Como é possível alguém há 4 anos ser o sétimo homem mais rico do planeta com a bagatela estimada em  US$ 30 bilhões e simplesmente reduzir para, sei lá, R$ 900, 600 ou 350 milhões?

A explicação para o fracasso de Eike em praticamente todos os negócios em que ele se meteu tem uma matriz, e, por incrível que pareça, não está fora, mas dentro dele. Eike, rejeitado pelos pais, convive com uma carência absurda. Quando comparado ao talento do pai Eliezer Batista, ele vira pó. Isso o destrói e não o larga como o sobrenome, ou uma tatuagem.

Dizem as más línguas que o pai do empresário, ex-ministro de Minas e Energia, deixou tudo mapeado para o filho usufruir. As minas, as melhores localizações para logística e distribuição de minérios, instalação de portos e métodos de escoamento de materiais pesados.

O pai construiu, e, a julgar pelas escolhas, Eike, o filho, destruiu.

A carência de Eike é a responsável pela necessidade profunda de carinho que transparece. Ele precisa estar cercado de bajuladores, garotas de programa, pessoas que sorriem na lógica perigosa de que “quando acaba o dinheiro, acaba o amor”.

Até o negócio que Eike montou para a atual mulher, Flávia Sampaio, que com ele concebeu o filho do casal, Balder, de 3 anos, deu com os burros n’água.

Nada deu certo. Por isso o apelido “dedo ruim”.

Ele se autodenominou de “X”. Ele é o “x” da questão.

Além da necessidade de ser paparicado, Eike Batista foi consumido por sua vaidade. No filme de Taylor Hackford, “Advogado do Diabo”, tem uma sequência  matadora, tornou-se clássica.

Depois do personagem interpretado por Keanu Reeves, Lomax (repare o “x”), ter passado tudo de ruim que você possa imaginar, chega o final da película e a trama parece solucionada.

Eis que um jornalista o aborda e suplica por uma entrevista. Só mais uma. Ele promete fama, e chega a dizer que Lomax é “uma estrela”,  e por isso precisa aceitar o convite.

Lomax aceita dar a entrevista no dia seguinte. O jornalista se transforma no “diabo” (como na vida real!) e cunha a frase:

– Vaidade. Com certeza, é o meu pecado predileto.

A vaidade destruiu Eike
A sua megalomania casada com a do ex-governador Sérgio Cabral deu ruim. A Operação Eficiência diz que Eike depositou US$ 16,5 milhões em favor de Cabral. E Cabral, por sua vez, deu vida boa para o empresário fixar a obra do Porto do Açu. O governo estadual vendeu para o senhor “X” um terreno avaliado em R$ 1,2 bilhão por R$ 37,5 milhões.

Além disso, foi noticiado na época que moradores foram removidos em 3 dias de forma desumana e truculenta.

Eike nunca foi muito dedicado aos estudos, desde que cursava os bancos escolares na Alemanha, onde nasceu sua mãe, e não concluiu nenhum curso superior. Hoje, amarga cela comum  no presídio Bandeira Estampa, no Complexo de Bangu, um “inferno” com capacidade para 541 presos e abriga 422. São contraventores, suspeitos de envolvimento com a milícia e quem não tem ligação com facções criminosas.

Um calor terrível, as celas têm 15 metros quadrados, beliches de concreto, sem vaso sanitário, só um buraco no chão que serve de banheiro e um cano com água fria para o banho representam um cenário aterrorizante.

Na sua rede social, a mulher Flávia tenta incentivar o marido com a frase “Deus tem um propósito até nos dias mais difíceis”,  com a hashtag #ForçaEikeEstamosComVocê ela transparece sua solidariedade. A ex-mulher Luma de Oliveira também confia na fé de Eike e que ele vai superar “tudo isso”.

Se ele fosse um de nós, estaria sofrendo. Como ele é um “personagem de conto infantil” ou um “protagonista de cinema”, tudo pode estar sendo sentido de uma forma diferente. Quem sabe? Afinal, ele queria tanto ser notícia e estar rodeado de atenções, não é exatamente o que está acontecendo? Talvez não como ele imaginasse, mas não se fala outra coisa no país do que em “Eike Batista e o seu inacreditável destino”.

Ele aceitou a piscadela do Diabo, e o Diabo fez a parte dele. Só saberemos a contrapartida do empresário após o seu primeiro depoimento.

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