Política

Recuperação de fotos íntimas de Marcela Temer de celular clonado foi o que credenciou Alexandre de Moraes para ministro do STF

247 – O agora ministro afastado da Justiça, Alexandre de Moraes, indicado de Michel Temer para a vaga do Supremo Tribunal Federal (STF), ganhou a confiança de Temer em abril de 2016, quando ainda era secretário de Segurança Pública de São Paulo.

Reportagem de Daniela Lima e Thaís Bilenky mostra que Temer, então vice-presidente, procurou Moraes em abril do ano passado para pedir-lhe ajuda na investigação a clonagem do celular de Marcela Temer. Um homem acessara seus e-mails e fotos íntimas e pedia dinheiro para não espalhar os dados.

Tratando do caso pessoalmente, Moraes foi responsável pela prisão do suspeito em 40 dias. Silvonei José de Jesus Souza foi condenado a 5 anos de prisão (leia mais). Nenhum detalhe do conteúdo do celular de Marcela Temer foi divulgado.

Alexandre de Moraes será indicado ao STF com o apoio de ao menos três partidos: PMDB, DEM e PSDB –hoje ele é tucano, mas já foi filiado às outras duas siglas. No último domingo (5), à noite, recebeu a ligação que tanto esperava. Era um colega da Esplanada. “O Michel te escolheu. Vai ser você.”

Xadrez do candidato a Ministro do Supremo

Peça 1 – introito

Para melhor entendimento do governo Temer, considere-se, como ponto de partida, de que se trata de um grupo sem a menor compreensão dos rituais do poder. São mais amadores do que o PT em 2003.

Antes do golpe do impeachment, eram políticos cujo campo de atuação sempre foi o baixo clero da Câmara. Em outros tempos, havia deputados referenciais conduzindo por cima o baixo clero – como Delfim Neto, Paulo Maluf, Ulisses. Já o grupo de Temer se destaca entre os menores, como um dos seus, e sabendo distribuir parcimoniosamente os frutos das barganhas políticas e dos financiamentos obscuros.

Os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, poderiam ser considerados estadistas perto do núcleo de Temer: Michel, Geddel, Eliseu Padilha e Moreira Franco.

Prova maior foi a exposição de Temer aos manifestantes quando da visita a Lula ao Sírio Libanês. Qualquer governante com um mínimo de traquejo enviaria membros de seu staff pessoal para sondar o ambiente. A comitiva de Temer se baseou apenas em um telefonema ao hospital, para saber se havia manifestantes na porta.

Expôs Temer a uma enorme vaia.

As próprias jogadas no poder, de Geddel com o Ministro da Cultura, de Eliseu Padilha apregoando aos quatro ventos os subornos oferecidos à mídia, as trocas de intrigas entre os palacianos, tudo isso denota uma soma de atrevimento com ignorância.

Mas explica em parte a ousadia de indicar Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Peça 2 – Alexandre e as fotos de Marcela Temer

Alexandre de Moraes iludiu o governador Geraldo Alckmin e o ex-prefeito Gilberto Kassab aparentando uma capacidade gerencial que nunca teve. Por onde passou promoveu desastres monumentais por falta de discernimento, de planejamento e por uma compulsão pelas manchetes (http://glurl.co/n57).

Atritou-se com a Polícia Civil paulista, por se apropriar de todos os feitos policiais. Criou o mesmo desgaste com a Polícia Federal por se pretender um aparador de pés de maconha no Paraguai.

Recém-saído de um cargo na prefeitura, responsável pelo ordenamento do transporte coletivo, montou seu escritório e teve como grande cliente empresas suspeitas de pertencer ao PCC.

Não se imagine que sua indicação para o Supremo visou apenas ampliar a blindagem da camarilha de Temer. É possível que a intenção maior tenha sido permitir a Temer livrar-se de Alexandre sem se expor.

Alexandre Moraes nunca foi do grupo de Temer. Sempre serviu a Geraldo Alckmin. Tornou-se próximo de Temer devido a um episódio que ainda guarda aura de mistério: a recuperação das fotos da primeira-dama Marcela Temer, que tinham sido capturadas por um hacker. Alexandre comandou a caçada ao hacker, recuperou as fotos e conseguiu mantê-las sob sigilo total.

A partir daí, ganhou ascendência sobre Temer, a ponto de ser indicado Ministro da Justiça e ser mantido no cargo, mesmo após desgastar o governo com uma série infindável de desastres verbais e da falta de reflexos para reagir às rebeliões no sistema prisional.

Em circunstâncias normais, nenhum Ministro se manteria no cargo. Alexandre sobreviveu, um mistério ninguém do staff de Temer entendeu.

A maneira mais fácil de Temer se livrar do Ministro da Justiça, sem se expor a eventuais represálias, foi sua nomeação para o Supremo.

Peça 3 – o Supremo e a Lava Jato

Agora, se tem no Supremo ao menos dois ministros absolutamente suspeitos para julgar Temer e seus soldados: Alexandre, nomeado por Temer e provavelmente aprovado rapidamente por um Senado com vários senadores envolvidos nas delações da Odebrecht; e Gilmar Mendes, flagrado visitando o futuro réu Michel Temer, apregoando aos quatro ventos seus trinta anos de amizade com ele, pegando carona para viagens internacionais.

Mas quem irá sustentar sua suspeição?

Certamente não será a presidente Carmen Lúcia quem irá enquadrá-lo. Em algumas oportunidades, Carmen Lúcia expôs a repórteres um grande temor em relação à capacidade de retaliação de Gilmar.

Por outro lado, a reação do Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot foi pedir inquérito criminal contra Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros, acusados de pretender atrapalhar a Lava Jato, a partir das gravações de Delcídio Amaral (http://glurl.co/n58).

Ao contrário do governo Dilma, Janot enfrenta, agora, políticos abaixo da crítica, mas que sabem manobrar instrumentos de poder. Sobrevivendo à delação da Odebrecht, aliás, é evidente que o governo Temer acabará com o republicanismo ingênuo de indicar para a PGR o procurador mais votado pelos sócios da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) – uma associação,  que teria funções de clube corporativo, indicando o PGR!

Mesmo porque é nítido o desgaste de Janot junto aos seus pares, pela falta de liderança sobre a corporação, hoje em dia conduzida pelos procuradores regionais da Lava Jato.

Peça 4 – a hora dos tucanos

A esta altura, todas as fichas de Janot – e da autonomia do futuro PGR – estão depositadas no PSDB, especialmente no seu conterrâneo Aécio Neves. Mas por quanto tempo manterá a hipocrisia de apregoar a isenção política da Lava Jato, e manter a blindagem sobre seus aliados? Já vazaram as delações da Odebrecht incriminando Serra e Aécio. E certamente o vazamento não veio da PGR.

Pelas expressões do chanceler José Serra, quando fotografado em eventos, o tempo da procrastinação está prestes a se esgotar. Serra sabe agir nas sombras, mas tem medo, pânico de enfrentar situações de conflito. Exemplos disso foi a greve da Polícia Civil, em frente ao Palácio Bandeirantes – quando ameaçaram invadir o Palácio, imediatamente Serra convocou as lideranças e aprovou uma pauta mais generosa do que a proposta da categoria; e os grandes desastres climáticos, com Serra escondendo-se no Palácio.

Agora, o que ameaça desabar sobre ele não é uma mera crise administrativa, mas uma montanha de denúncias. E em um momento em que Serra começa a perder gradativamente a influência sobre a mídia e o temor que infundia nos repórteres.

Bastará um indício sequer que permita abrir as contas da filha, Verônica Serra, para a verdadeira história de Serra vir à tona. Provavelmente Sérgio Cabral perderá o campeonato.

É nesse quadro que há esse conflito entre abrir ou não o sigilo das delações.

Abrindo, haverá uma enchente inicial, com a mídia focando preferencialmente os alvos petistas, mas sem ter como esconder os aliados. Mesmo porque as fontes de vazamento não serão apenas a Procuradoria e os procuradores da Lava Jato, mas um leque muito maior de pessoas envolvidas com a delação.

Em um segundo momento, não haverá como o PGR fugir de medidas que se imporão pela mera divulgação dos fatos – como aconteceu com o vazamento sobre os pagamentos de Odebrecht à conta suíça do tesoureiro de Serra.

247 – A direita brasileira, que tanto acusou o PT de tentar transformar o Brasil numa Venezuela, aparelhando o Estado em defesa de seus interesses, acaba de fazer o que fingia condenar.

Ao indicar ao STF como revisor da Lava Jato seu próprio ministro da Justiça, Michel Temer converteu o Supremo Tribunal Federal numa corte bolivariana.

Lá, Alexandre de Moraes terá a missão de estancar a sangria, blindando políticos do PSDB, seu partido, e do PMDB, como o próprio Temer, que foi citado 43 vezes apenas na primeira delação da Odebrecht.

Curiosamente, Gilmar Mendes, que em 2014 condenava o risco de bolivarianismo no STF, foi quem articulou a ida do tucano Moraes para a corte (relembre aqui).

Se há algo de bom na tragédia brasileira, resta apenas o aspecto pedagógico do golpe, que está nu e exposto como uma articulação de políticos corruptos que se uniram para se salvar e derrubar uma presidente honesta.

247 – Nem a Globo, que foi peça-chave para colocar Michel Temer no poder por meio de um golpe parlamentar, conseguiu escondeu o óbvio: ao indicar seu próprio ministro da Justiça como ministro do STF, e revisor da Lava Jato, ele, que foi 43 vezes delatado pela Odebrecht, estuprou a Nação.

Eis o que escreveu Miriam Leitão:

Temer erra ao indicar pessoa tão próxima a ele e ao PSDB

Por Miriam Leitão, em seu blog no Globo

O presidente Michel Temer errou na indicação do ministro da Justiça Alexandre de Moraes para a vaga no Supremo. Temer foi citado na Lava-Jato, vários dos seus ministros também, alguns deles já estão sendo investigados. Esta não é a hora de escolher para o STF alguém da sua copa e cozinha e membro do PSDB.

O Brasil já viveu constrangimentos demais com ministros que claramente têm uma inclinação partidária. O ministro Dias Toffoli foi advogado do PT em campanhas presidenciais e, ao ser indicado para a vaga de ministro, achou que não estava impedido de atuar no julgamento do mensalão. Esse é um dos casos, não o único.

Neste momento com o primeiro e segundo escalões do governo sob o escrutínio do STF seria melhor se o governo Temer não tivesse escolhido um membro do PSDB, e um ministro do seu governo, e muito menos uma pessoa tão controversa.

 

Leave a Reply

Theme by Anders Norén