Notícias gerais, Política

A política brasileira está com as vísceras expostas e o país vai se desmanchando a olhos vistos. Passamos a ter, como definição da política, o que disseram e o que vão dizer os delatores. Pode um país viver à espera do que digam bandidos?

Pode um país viver à espera do que digam bandidos?

 A política brasileira está com as vísceras expostas  – e nem todos as vísceras são expostas da mesma maneira, porque há os intestinos amigos –  e o país vai se desmanchando a olhos vistos.
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Passamos agora – e já há algum tempo- a ter, como definição da política o que disseram e o que vão dizer pessoas do calibre de Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht, Léo Pinheiro, Delcídio do Amaral e – daqui a pouco, quem sabe –  Eliseu Padilha, Geddel e Jucá.

O país é colocado sob o tacão de um justiceiro de província e ameaça chegar ao impensável de ver um neonazista caricato e feroz elevado à condição de favorito à eleição, se levarem adiante o plano de impugnar Lula, entregando a ele o terreno do povão, onde os nomes da direita convencional não entram.

Está sendo servido um bolo envenenado ao nosso país sob o alvo glacê do moralismo.

À sua maneira, o Estado Islâmico também é.

Temos uma presidente eleita afastada, um presidente golpista recluso, um Congresso acanalhado, denunciado ou com um cento e meio de investigados.

Um procurador-geral da República que apressa-se quando se trata de atacar Lula e impedi-lo de assumir a Casa Civil e representar uma chance de salvar a democracia, mas que ralenta suas ações – quando não ele, o STF – quando se trata de Eduardo Cunha ou de Aécio Neves, só agora instado a dar explicações sobre uma denúncia feita há dois anos por Alberto Youssef. E o próprio Supremo atirado à lama da inconfiabilidade e do atrelamento à quadrilha que  se sabe no poder.

Mas o que ocorre no mundo real? A produção cai, os empregos se fecham, as empresas são vendidas na bacia das almas e com o bonito nome de “fusões e aquisições” e o Brasil regride à desindustrialização, com a insanidade de uma política cambial que “substitui”  a retenção dos preços administrados como poção anti-inflacionária.

O petróleo do pré-sal se vai, os direitos sociais e trabalhistas de mais de 70 anos estão na bica de serem tirados, o Brasil vai voltando à eficiente Lei da Selva. E com direito a selvagens urrando.

Os tolos procuram explicações sofisticadas para o crescimento das intenções de voto de Lula porque não conseguem entender, mandões do povo que são, que a população vê tudo isso mais com desânimo que ódio, mais como sofrimento que raiva, mais como desejo de estabilidade que com ilusão que deste processo saia um novo Brasil, remido de pecados.

É por isso que precisam fazer uma violência contra ele. Porque a população, que o tem vivo na memória, sabe que Lula é o antônimo de crise.

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O fantasma da culpa assombra: Temer deixa o Alvorada e volta para o Jaburu

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Freud explica. Ou melhor ainda: Sartre.

Michel Temer, 11 dias depois de ir morar no Palácio da Alvorada, com uma reforma que fez desaparecer móveis, tapetes e outros objetos, muitos do tempo de JK, porque tinha a cor telha ou vermelha, desistiu, diz a Folha.

Volta para o Palácio do Jaburu, residência do vice-presidente.

A desculpa é que o Alvorada é “grande e longe demais”.

Longe, não é, porque não deve distar sequer 1 km do Jaburu, e isso é nada para quem só anda de carro oficial.

Quanto ao grande, tem razão, mas talvez essa “grandeza” seja mais fruto da pequenez do ocupante, que sabe estar ali por uma usurpação.

Nada contra se Temer não quisesse morar num palácio, mas o Jaburu também é um. Um pouco menor, mas não pequeno. A diferença é que é mais discreto e recolhido, como um vice deve ser.

O mais provável é que tenha sido mesmo a velha culpa, aquele sentimento opressivo que vem a quem assassinou politicamente uma presidente eleita  e, pelo crime, apossou-se do seu cargo e de seu lugar de moradia.

O cargo, Temer exerce sem remorso ou contenção.

Mas a casa, com aqueles imensos salões, à noite, é cheia dos fantasmas do remorso, que Sartre simbolizou tão bem como moscas: afasta-se-as (mesóclise é para todos), mas elas voltam, insistem, teimam.

Eram, na peça, a Erínias gregas, as filhas da noite,  horríveis  demais para serem olhadas, que perseguiam e atormentavam os criminosos fossem para onde fossem, por mais que insistissem em se livrar delas.

Ou, talvez, para dar uma explicação mais à altura da turma que chegou ao poder, seja melhor recorrer a Cinderela, dos Irmãos Grimm: está chegando a hora de voltar a ser abóbora.

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