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Retratos da violência contra a mulher, por Maíra Vasconcelos – numa delegacia da mulher em BH: "isso não só comigo não… aqui devia ter umas vinte mulheres, advogadas, bancárias, meninas que moram em favelas."

Retratos da violência contra a mulher, por Maíra Vasconcelos

qui, 30/03/2017 – 07:26

Atualizado em 30/03/2017 – 08:38

Retratos da violência contra a mulher

por Maíra Vasconcelos

Esta reportagem reúne 32 depoimentos de mulheres vítimas de violência, que se apresentaram formalmente para fazer o boletim de ocorrência (BO), na Delegacia Especializada da Mulher, do Idoso e da Pessoa com Deficiência, em Belo Horizonte. Os relatos foram colhidos em visita à delegacia, uma vez por semana, no período de um mês e meio – entre janeiro e março deste ano. A delegada Danúbia Quadros, da Polícia Civil de Minas Gerais, autorizou a reportagem a permanecer por duas horas na delegacia, todas as quartas-feiras. A abordagem aconteceu enquanto as vítimas esperavam na recepção para serem chamadas a prestar depoimento.

Por medo, muitas mulheres disseram não querer relatar seu caso à imprensa, afirmando estarem sob ameaça de morte. Foram muitas as vítimas que, por medo de “acontecer alguma coisa pior”, não quiseram falar. A frequência de mulheres na delegacia é maior nas segundas e terças-feiras, segundo explicou Danúbia Quadros, por serem os dias logo após o fim de semana, quando ocorrem festas, reuniões familiares, maior ingestão de álcool e drogas ilícitas.

Durante esse período na delegacia, a reportagem conversou ainda com a delegada Gabriela Serejo, o escrivão André José Lopes e o investigador Allan Gandra, da Polícia Civil de Minas Gerais.

*

Delegacia da Mulher em Belo Horizonte

Quarta-feira, 25 de janeiro de 2017 – 14 horas às 16 horas.

Luciana Gomes Miranda, 40, comerciante.

“Ele foi preso agora. Ele me agrediu. Eu tive um relacionamento curto com ele, de uns quatro meses, depois terminamos, só que eu estava grávida. Voltei com ele, ele é usuário de droga, bebe, recebeu herança e queimou tudo na cocaína e na bebida. Eu tive meu filho, sempre trabalhei e hoje tenho uma loja lá no meu bairro, num shoppingzinho. E ele tem me ameaçado, já tem bastante tempo, por causa do meu filho, e não aceita o término do relacionamento. Sou bem mais velha que ele, ele tem 28, vai fazer 29, um cara estudado, mora sozinho, a mãe banca ele.

E eu vim pedir uma medida protetiva, porque no dia 1º de janeiro ele me agrediu. Assim que eu fui parar no IML (Instituto Médico Legal), isso aqui em mim, olha (e colocou a mão no rosto), ele acabou comigo, agora que melhorou. E hoje cheguei para trabalhar com meu filho, tem uma moça que olha meu filho e busca ele lá na minha loja, e ele estava na lanchonete dentro do shopping, já bêbado e drogado. Então eu voltei para trás e acionei a polícia para eu poder abrir a minha loja. A polícia veio, quando a polícia chegou ele já tinha saído, estava tipo em uma praça que tem lá, mas prenderam ele lá. Eu vim com ele aos berros dentro da viatura, e mesmo aqui ele ainda me agrediu, me chamou de botijão de gás, que eu sou velha, que eu sou gorda. Ele é muito autoritário, um cara jovem e acha que pode fazer tudo. Está preso aí, estou esperando para ser ouvida pela delegada. A medida protetiva saiu, só que ele não estava ciente. Eu já sabia, mas acho que ele não foi notificado.

Vai ficar preso, eu acho, e eu quero. Porque se ele sair daí é perigoso ele ir atrás de mim lá na minha casa, porque nós moramos no mesmo bairro. Infelizmente ele causou isso tudo, porque eu não queria isso. Ele pediu para ver meu filho. Ele só registrou meu filho, porque eu cuido sozinha, eu alimento sozinha, ele quase não vê ele, tem vinte e poucos dias que ele não vê o filho.

E tudo isso foi dia 1º de janeiro, num domingo à tarde, e eu ia deixar ele ver o filho, ia levar na casa da mãe dele, que é uma pessoa muito bacana, me ajuda bastante, e ela própria que pediu pra eu resolver, você tem que colocar um basta nisso, porque ele não pode ficar te agredindo assim, não, vai te agredir até quando? Aí eu tomei essa medida e vou levar adiante. O policial que me atendeu hoje falou, não para por aqui, leva adiante, porque isso é uma segurança para você, no estado em que ele está, ele te mata. Me mata. Ele está muito alterado. Então, agora estou esperando para ser ouvida. E vamos ver o que ela vai falar, e se ele vai ficar preso. Mas acho que vão tirar ele daqui e vão levá-lo para um outro lugar, não tenho certeza.

E isso acontece não é só comigo não, porque no dia que eu vim aqui, devia ter umas vinte mulheres, advogadas, bancárias, meninas que moram em favelas. Mas as que moram em favelas são poucas, porque lá elas mandam matar o cara, o cara lá não agride mulher, não. Eles matam ele. Em favela? Não fica nenhum. Agora, a gente que é boba, vai aceitando, aceitando, aceitando. Porque ele já me agrediu várias vezes, eu só vim agora porque ele me agrediu do nada, do nada. Falei que ia embora com meu filho, na casa onde eu estava, ele começou a me bater, a me socar.

Estou esperando para ser ouvida, se Deus quiser vai dá tudo certo, senão vou ter que mudar de Belo Horizonte. Ir embora, fechar meu comércio e ir embora, por causa dele. Não aguento mais. Só de ver ele, já fico nervosa. Sabe quando você vê uma pessoa e já fica nervosa? Já mudo, quero ir embora daqui. Já falei até com minha irmã, quero dar uma viajada com meu filho para ver se ele esquece um pouco isso. Creio que ele fique hoje preso aqui, ou levem ele para outro lugar. Eu não sabia que prendia, você sabia que prendem? Fiquei sabendo aqui, que prende também. Tá preso, tá na cela. Vamos ver, vamos esperar.”

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Não quiseram se identificar – Mãe, 46, e filha, 19. Relato da filha.

“A gente veio procurar uma informação, para saber o que a gente pode fazer com a agressão que a gente “está correndo” em casa, que tem pouco tempo. Meu pai chega muito agressivo dentro de casa e fica tentando humilhar ela, sabe? Aí ela não está aguentando mais esse sofrimento. Pra gente sair de casa, pra gente… E no dia que a gente for mudar, ele não avançar na gente, não quebrar nossas coisas. Por isso que a gente veio aqui, pra saber o que eles podem estar fazendo pela gente.

Não é que nós queremos sair de casa, lá a casa é deles, né? E ela ajudou a construir, do chão mesmo, e ele não está dando nem o braço a torcer. Porque ele que está sendo errado no momento, pra dar a casa, entendeu? E ela está cansada de lutar pelo relacionamento com ele, e ele chega estressado, chega “coisa”, e para ela não perder nem eu, nem a vida dela, ela veio aqui pra gente procurar uma orientação pra sair (de casa), poder sair e ele não fazer nada com a gente.

Eu sou mais ameaçada do que ela, porque eu defendo ela e ele não gosta. É por isso que a gente veio aqui. Depois de 25 anos de casado, tem oito anos que ele fez sacanagem com ela, tem oito anos que fez a burrada que fez com ela, fica humilhando ela, depois de 25 anos de casado.”

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Marlise Ely Gonçalves, Conselheira Tutelar do Barreiro – acompanhou uma mulher vítima de violência à delegacia, que chegou com dois filhos pequenos.

“O Conselho Tutelar recebeu (a denúncia) do centro de saúde, junto com a Guarda Municipal, a presença da diretora que está ali dentro e as crianças. Ela vem sofrendo violência já tem algum tempo e nunca teve coragem de falar porque ela tem medo. Ele sempre ameaça, ele sempre coloca ela coagida. Ela então nunca declarou isso e nunca deu essa informação ao Conselho. Mas, hoje, quando a violência parece que foi… Ela ficou um pouco mais assustada, então ela foi até o centro de saúde, porque ele disse que se ela não saísse, que ele iria matá-la. Ela, assustada, pegou as coisas e as crianças e foi para o centro de saúde. Chegou no centro de saúde e foi buscar ajuda, e lá ele chegou e ameaçou ela novamente. Ela disse que não iria com ele, ela entrou para o centro de saúde, para os fundos do centro de saúde, e ele ainda permaneceu lá. O centro de saúde vendo essa situação, acionou a Guarda, que levou até o Conselho.

Diante da situação, conversamos com a mãe, explicamos que não era mais possível ela voltar (para casa), porque tem duas crianças envolvidas, não são filhas dele, mas são duas crianças que presenciam isso com frequência. E a partir daquela hora que estávamos cientes desse fato, que não era mais possível, ela seria conduzida até a delegacia. Ela mostrou um pouco de resistência, medo, mas a gente conversou, deixamos ela mais tranquila e mais confiante, que a partir de agora ela será acompanhada e que essa é uma medida necessária, nesse momento, para resguardar a vida dela. Aí ela aceitou e viemos para fazer a ocorrência, levá-la para um local seguro com as crianças.

Basicamente, foi essa a nossa intervenção, de imediato foi essa a intervenção. É a primeira vez que ela vem à delegacia. Tem um ano e meio que ela sofre essa situação. Parece que, há uma semana e meia, ela foi severamente agredida, deu entrada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Barreiro, mas com medo não quis fazer a ocorrência. E a UPA também não comunicou ao Conselho e nem chamou a polícia. Ela me contou isso no carro vindo para cá.

Então, ela tem marcas, tem, e não somente emocional. Ela está muito fragilizada, é muito jovem, tem cinco meninos, mas nenhum é filho dele, mas são cinco crianças. Uma situação de muita vulnerabilidade de todos os pontos de vista, desde o social, o emocional, o financeiro, toda a estrutura. Mas é a primeira vez que ela vem.  E tomou coragem, eu acho, a partir do que a gente colocou para ela: olha, hoje não tem jeito, você terá que ir. Quando ela mostrou resistência: olha, infelizmente, ou você vai ou o Conselho terá que tomar uma medida mais dura, você é adulta, tem poder sobre sua vida, mas as crianças não saem daqui. Aí ela assustou e viu nessa conversa que era realmente necessário, e que ela corria o risco. Porque o Conselho não iria deixar ela voltar com as crianças para casa, em hipótese nenhuma, mesmo que isso fosse um drama, e com certeza seria. Tirar criança de mãe é um drama muito grande, são crianças extremamente apegadas, mas a gente não iria deixar em hipótese nenhuma. Mas foi bom, teve esse lado, ela foi entender que a denúncia é importante, ela conseguiu entender que se não fosse tudo isso, ela talvez não estaria aqui. E a Guarda ter ido, o próprio centro de saúde ter acionado e encaminhado ao Conselho. Então, foi basicamente isso.”

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