13/04/2017 | domtotal.com

Porque mataram Jesus?

A morte de Jesus foi consequência da sua maneira de viver. Traído, caiu vítima de uma conspiração. Era um rebelde. O sistema não o suportava. Não se enquadrava na ordem.

Sendo para o Pai, Jesus podia ser para os outros. (Reprodução)

Por Élio Gasda*

Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.

Por que mataram Jesus? Sua morte é um acontecimento bem atestado pela Bíblia. Jesus teve uma vida plenamente humana. Homem comum que viveu radicalmente sua humanidade e revelou sua filiação divina. Era coerente entre o que dizia e o que fazia. Palavras e ações em sintonia na defesa dos pobres, da justiça e de todas as vidas em situação limite. Cativou multidões, fez amigos, despertou esperanças. Não viveu para si mesmo, mas para o povo. Dedicou sua vida combatendo as forças da morte, a doença, as injustiças, a fome, a violência. Tendo como único critério o amor ao próximo, era profundamente livre diante da lei, das autoridades, da religião e dos costumes. Expressava sua essência: sendo para o Pai, podia ser para os outros. As pessoas vêm primeiro.

Quem matou Jesus? A morte de Jesus foi consequência da sua maneira de viver. Traído, caiu vítima de uma conspiração. Era um rebelde. O sistema não o suportava. Não se enquadrava na ordem. “Achamos este homem fazendo subversão entre nosso povo” (Lc 23,2). Ele se contrapôs à lógica das instituições ao colocar os pobres em primeiro lugar, ao anunciar a salvação aos pecadores, devolver a saúde aos enfermos, dar de comer aos famintos, desconstruir o machismo e acolher as crianças. Sua morte deveria servir de exemplo aos subversivos. O sistema não admite mudanças. Mas Jesus não se deteve diante das ameaças sofridas. Não recuou. Jesus tem lado. O lado da justiça. O lado de Deus.

Jesus enfrenta um duplo processo. As autoridades religiosas o entregaram à autoridade política, o procurador romano Pôncio Pilatos, sendo por este crucificado, uma pena reservada a crimes políticos. O poder religioso, quando ameaçado, procura apoiar-se no poder político para manter-se. Jesus era um perigo real aos poderes. Poderosos trabalharam unidos para proteger seus interesses em perigo. Tudo isso exigia uma solução radical. A morte mostra que o conflito chegou ao extremo. Jesus não foge do conflito, nem muito menos modifica sua mensagem. Preferiu ser executado a trair sua consciência. Nada o detinha. Então, foi crucificado entre dois rebeldes políticos.

Porque Jesus morreu? Sua morte não se deu apenas devido a sua relação com o Pai. Deus não quer a morte de seus Filhos. Jesus enfrentou a morte e deu sentido a ela. Ninguém tira a vida de mim, mas eu a deu livremente (João 10, 18). Morreu pelos mesmos motivos pelos quais viveu. O pastor bom entrega sua vida pelas ovelhas. É uma prova de amor. “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Mas o que Deus tem a ver com isso? A morte torna-se uma entrega: o Filho, dom do Pai, se entrega pela salvação do mundo. O Pai enviou seu Filho com todos os riscos implícitos. A morte é um risco. Deus não quer o sofrimento. Jesus nunca quis o sofrimento nem para Ele nem para ninguém. O sofrimento precisa ser destruído. Jesus morreu crucificado para que ninguém mais fosse crucificado.

Jesus questiona a realidade em que se impõe lei do mais forte sobre os despojados. Em quais cruzes Jesus está hoje? Na cruz das vítimas da injustiça, na cruz da fome, da violência, do desemprego, do latifúndio, da guerra, do trabalho escravo, do feminicídio, do tráfico de pessoas e da discriminação. Morreu pelos mesmos motivos pelos quais viveu. Foi ressuscitado pela mesma razão. Sua ressurreição é a afirmação da vitória de Deus sobre a violência e a morte. Sua ressurreição é a continuidade de uma vida que a morte não pode eliminar. Toda vida vivida em plenitude chega à plenitude da Ressurreição: Ele vive! Não há mais limites para sua presença no mundo. A ressurreição diz de que lado Deus está. Uma vida assim não morre.

Os cristãos são chamados a ser um novo cristo, viver pelos motivos pelos quais Jesus viveu e ter a mesma atitude diante dos sistemas injustos, violentos e excludentes. Num país tomado pela desigualdade e pobreza, celebrar a Páscoa reforça o compromisso por justiça, fraternidade e paz. Sua mensagem é um estímulo para enfrentar sem trégua as forças das trevas que tomaram conta do Brasil. Para o povo brasileiro, traído e golpeado, que sofre um verdadeiro calvário, a Páscoa é uma boa notícia. No crucificado está Deus identificado com os pobres gritando contra a barbárie. A sexta feira santa continua! Recuar? Você tem lado? Iria até o fim também? Por que te matariam?

*Élio Gasda: Doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).