Texto 2 – O velho senhor do pijama listrado, por Fernando Horta

Texto 2 – O velho senhor do pijama listrado, por Fernando Horta

Em 2008, o prejuízo mensurado pela crise financeira foi de US$ 22 trilhões apenas nos EUA. Quando o mundo tentava sair da imensa crise, em 2010 houve a crise da dívida da zona do Euro. O comércio mundial teve um refluxo de quase 40% em valor.  O preço médio da gasolina no varejo norte-americano no período, que estava a US$ a 4,12 em junho, chegou a US$1,61 em novembro de 2008, para se estabilizar em US$2,86 até 2010. O desemprego nos EUA que estava na ordem de 5 a 6% em 2007, atinge 10% em 2008 e se mantém no patamar acima de 8% até 2012. Para piorar a crise econômica norte-americana, a dívida interna fez com que entre setembro e outubro de 2013 ocorresse o “shutdown” da máquina pública. Por 16 dias o governo dos EUA deixou de pagar salários e pensões a todos os funcionários públicos, em todo o país e no exterior. A situação só é contornada com a votação do aumento do teto da dívida pelo congresso no final de outubro.

A maioria dos analistas internacionais e historiadores concordam que a hegemonia política e econômica mundial exercida pelos EUA está em declínio. Não apenas pela percepção de que “nenhum império é eterno”, mas também pelo fato de que, nos últimos anos, uma série de escolhas mal pensadas colocou os EUA em situação delicada. Desde o atentado ao World Trade Center, em 2001, os norte-americanos vêm ignorando organismos internacionais, tornando as suas ações cada vez mais custosas no cenário mundial. As coligações contra o Iraque, contra o Afeganistão, Líbia e Síria promoveram não apenas um desgaste político, mas também um monumental aumento nos déficits internos. Até 2014 estimativas davam conta de que os EUA teriam gasto quase 4 trilhões de dólares com as campanhas militares, com um custo diário de mais de US$ 200 milhões de dólares.

Experimentando oposição política de diversos “aliados” nos meios internacionais, os EUA criaram um sistema de recolhimento informações sobre diversos países, nada ortodoxo, chamado de NSA. O objetivo era inicialmente antecipar posturas de governos nos meios diplomáticos e, assim, poder estabelecer ações norte-americanas nos organismos internacionais. Inglaterra, Austrália, Alemanha, Suécia, Holanda, Dinamarca entre outros países, foram espionados e apresentaram, de uma forma ou de outra, críticas ao projeto americano. O Brasil, não foi, portanto, o único. A partir de interesses econômicos a NSA parece ter ampliado seus alvos. Snowden declara, por exemplo, que grandes empresas alemãs que competiam com as americanas foram espionadas (http://www.bbc.com/news/25907502). A NSA nunca teve foco no Brasil e não se registrou tentativas de golpe em outros países espionados.

Em 2014 é fato que vários grupos com atuação conservadora e financiados internacionalmente passaram a atacar o governo da presidenta Dilma Rousseff. O MBL, em especial, é uma cópia do Students for Liberty, um think tank conservador ativo nos EUA (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/46627/de+onde+vem+e+para+onde+vai+a+ponte+para+o+futuro.shtml). Estas instituições, entretanto, atacaram tremendamente o próprio governo Obama nos EUA (http://www.newyorker.com/magazine/2010/08/30/covert-operations), tanto em questões econômicas como em questões climáticas (https://www.theguardian.com/environment/2012/may/08/conservative-thinktanks-obama-energy-plans) promovendo uma imensa campanha de desestabilização por lá, inclusive com ameaças de impeachment (https://www.mediamatters.org/blog/2014/06/03/five-years-of-conservatives-calling-for-obamas/199555). Seria paranóico acreditar que, no Brasil, estes organismos atuam por ordem do “governo americano”(dos “EUA”) e nos EUA eles atuam contra os próprios chefes. O fato é que o conservadorismo tem crescido muito no mundo financiado por grandes bilionários e empresas e usado para atacar governos por todo o globo, incluindo o próprio governo norte-americano.

O argumento sobre a embaixadora Liliana Ayalde, chamada de “senhora do golpe suave”, também não merece muito crédito dentro da narrativa do golpe yankee. Ayalde é diplomata desde 1981 tendo incialmente servido em Bangladesh e depois na Guatemala (1985), na Nicarágua (1995-1999), na Bolívia (1999-2005) e na Colômbia (2005-2008) (http://www.allgov.com/news/appointments-and-resignations/ambassador-to-brazil-who-is-liliana-ayalde-130622?news=850359). Não há indícios do uso dos poderes de Ayalde nestes países. Em 2008, ela foi enviada como embaixadora no Paraguay e é retirada no início de 2011 sendo que o golpe contra Lugo ocorre em junho de 2012. Ayalde nunca esteve em Honduras, e, depois de um período servindo em território norte-americano, foi designada para o Brasil chegando em agosto de 2013 (após os protestos de junho, portanto) e ficando até janeiro de 2017.

A postura brasileira de tornar o pré-sal um ativo nacional para desenvolvimento da economia interna certamente desgostou as empresas petrolíferas mundiais. O “livre mercado” é sempre um discurso na boca de bilionários que pouco ou nada tem de interesses nacionais. Entretanto, desde que Temer assumiu o governo, nenhuma empresa norte-americana conseguiu arrematar nenhuma parte do pré-sal. Se o golpe tivesse sido dado com este objetivo, então diríamos que foi um tremendo fracasso com empresas francesas, holandesas e até norueguesas participando do butim e deixando as norte-americanas de lado.

A questão dos BRICS, que é normalmente apontada como outro motivo para os EUA capitanearem um golpe sobre o Brasil, precisa ser vista com cuidado. Em primeiro lugar, os pesquisadores há muito afirmam que não há alinhamento político nos BRICS para além da retórica. Com economias mais concorrentes que complementares e com uma assimetria gigantesca entre China e Índia e Brasil e África do Sul, por exemplo, o discurso sempre foi muito mais afinado como propaganda do que como prática. Entretanto, mesmo depois do golpe, o Brasil vem mantendo estes vínculos fortes, aumentando, por exemplo a cooperação energética (http://www.sunvoltenergiasolar.com.br/banco-dos-brics-e-bndes-firmam-emprestimo-de-us-300-mi-para-energia-renovavel/). A ideia de que o golpe foi também por causa do BRICS é muito mais uma vontade de que fosse do que uma realidade empírica. Com o recuo do tamanho das economias ocidentais, maior ainda ficou a diferença para China e Índia. Hoje, com ou sem Brasil, os “RICS” teriam condições de agir internacionalmente, como de fato estão fazendo.

A verdade é que argumentos vagos como “o interesse do grande capital” ou a “geopolítica da hegemonia americana” são sempre apelativos, mas muito pouco explicativos. Moniz Bandeira argumenta, por exemplo, pelo interesse nas “bases militares” na América Latina exatamente quando Trump, em função do enorme custo de bases americanas pelo mundo, ameaça fechar inúmeras delas (https://www.washingtonpost.com/blogs/post-partisan/wp/2016/03/21/a-transcript-of-donald-trumps-meeting-with-the-washington-post-editorial-board/). Na realidade, em 2016 os EUA gastaram cerca de US$ 598 bilhões em defesa quando o valor para ciência e educação apenas US$ 100 bilhões. Os mesmos think tanks conservadores que financiaram o golpe no Brasil pensam que as bases ao redor do mundo devem ser fechadas (http://time.com/4511744/american-military-bases-overseas/). Seria um pouco ilógico que eles financiassem um golpe com o objetivo de fazerem exatamente o contrário do que dizem que deveria ser feito.

Diante disto, é importante reafirmar que a narrativa do protagonismo, liderança e mesmo controle estratégico norte-americano sobre o golpe carece de fontes primárias para seu crédito. A melhor indicação parecem ser os “cursos” do juiz Sérgio Moro nos EUA desde 2007 até 2009. Entretanto, é notório que os EUA realizaram diversos destes treinamentos desde o atentado de 2001, com diversos países, tendo como objetivo “enxugar” o financiamento para o terrorismo. Ademais, o Brasil tem milhares de juízes e seria bastante irracional treinar apenas um, num estado distante dos centros de poder brasileiros com o objetivo de dar o golpe. Creio que, os EUA com seus analistas podem ter ajudado em um momento ou outro e estão sim pensando em formas de obterem vantagem de toda esta confusão, mas não foram eles que planejaram ou mesmo executaram as ações que nos colocaram nesta distopia política. Procuremos as causas e os atores, pois, internamente. O velho senhor do pijama de listras brancas e vermelhas parece estar envelhecendo …