E o general falou… por Fernando Horta

 

E o general falou…

por Fernando Horta

Eduardo Dias da Costa Villas Bôas é um grande acerto de Dilma, e só engrandece o país.

Uma vez, atendendo a um encontro no Itamaraty, tive a oportunidade de ouvir alguns dos mais importantes tomadores de decisão em Política Externa no Brasil. A certa altura do encontro, um coronel do exército brasileiro tomou a palavra e começou a falar em “dever”, “pátria”, “ideologia”, “esquerdismo”, “Venezuela” e terminava ligando “movimentos sociais” a “baderna”. Me recordo que a fala do coronel tornou a sala em que ocorria o evento, por alguns minutos, nauseabunda. Acredito que o mesmo discurso, hoje no Itamaraty, seria efusivamente aplaudido.

Naquele encontro, em 2013, o breve, mas barulhento silêncio que seguiu ao coronel, foi cortado por um embaixador que disse textualmente: “Coronel, nós, democratas latino-americanos, quando vemos uma pessoa de uniforme, com este óculos “Top Gun” que o senhor tem no bolso, falar em “dever”, “ideologia” e “pátria” na mesma frase, nós temos um calafrio”. A fala do embaixador não apenas devolveu ao ambiente dinâmica como constrangeu o coronel de forma direta. O riso, mesmo contido, que tomou conta do salão ajudou a tornar o momento menos duro.

Nesta quinta feita (22), Villas Boas esteve no senado para falar sobre Relações Exteriores e Defesa Nacional. E o general não usou nenhuma das palavras acima, não usou clichês característicos das falas de oficiais mal preparados e deu um tremendo exemplo de um militar com alta capacidade analítica. O general usou conceitos como “identidade”, “imperialismo”, “anacronismo” e voltou a criticar o governo declarando que o Brasil está “à deriva, sem rumo”. O conhecimento do general a respeito de algumas questões teóricas de História impressiona tanto quanto suas posições a respeito do Brasil atual. Não me pegaria de surpresa se o comandante das forças armadas fosse substituído por Temer, pois claramente há um fosso entre o “ministério de notáveis” que cercam o vice-presidente e Villas Boas.

O ponto alto da fala do general, na minha opinião, é sua crítica àqueles que ainda estão na Guerra Fria. Gente que luta contra o “comunismo” e defende a “liberdade”. Este pessoal saiu de alguma “máquina do tempo que certamente foi produzida em inglês. Quem faz parte de listas de e-mails ou grupos de redes sociais envolvendo soldados, sargentos ou mesmo oficiais de baixa patente do exército brasileiro se apavora com o conteúdo. Um misto de ignorância e paranoia que ainda não conseguiu chegar ao século XXI e que refletem o atraso de pensamento destas pessoas. Dizem que durante o período de Hitler na Alemanha, a palavra “Deutschland”, dita em voz alta nas ruas, provocava minutos de histeria fascista em público. Nestes grupos, escrever “Cuba”, “Che Guevara” ou “Lula” provoca uma profusão de ofensas e agressões vexatória. Isto apenas mostra que o general é ainda mais meritório por não se deixar levar pelo “humor” da tropa, por não “jogar para a torcida”.

Villas Boas demonstra uma posição crítica e nacionalista sem cair no histerismo ufanista que durante tanto tempo caracterizou o exército brasileiro. Herança da “Escola das Américas” e do golpe de 1964. Como comandante militar da Amazônia que foi, o chefe das forças armadas brasileiras tem um “pé atrás” com ONGs, especialmente estrangeiras. Desconfiança que a esquerda responsável também partilha. O general reproduz um certo “senso comum” sobre ONGs que defendem as demarcações indígenas, mas isto não tira o acerto de sua postura. Uma das coisas mais importantes para o Brasil hoje seria uma legislação mais dura e de maior controle sobre ONGs e Think Tanks. Nisto seria proveitoso nos espelharmos nos EUA. A facilidade com que estas organizações atuam e são financiadas no Brasil é alarmante. Algumas acusadas de biopirataria, de tráfico de animais, de serem postos avançados de empresas estrangeiras, manipularem processos políticos e etc., e que continuam operando em nosso país.

Há uma boa discussão a ser feita sobre o modelo de inserção da Amazônia no país. Todavia, o general precisa e tem bagagem para ser ouvido. A ideia dele de que o “desenvolvimento” ajudaria a “proteger” a natureza ou mesmo a sua posição de que os índios são os “principais prejudicados” dentro do modelo de ação do governo para a região precisam ser aprofundadas e questionadas para chegarmos a uma postura mais sólida a respeito da afirmação de que a Amazônia valeria cerca de 23 trilhões de reais. A ideia de Temer de vender terras a estrangeiros certamente namora com este número. É mais uma das inúmeras péssimas iniciativas que o “staff” do vice-presidente tem colocado em votação.

Se, por um lado, sabemos que, para um país que não consegue disciplinar seus policiais a não matarem ou torturem seus cidadãos e que não consegue chegar a um consenso sobre a necessidade da participação popular para o retorno da democracia, exigir um “plano de inserção” para a região amazônica soa distante e quase infactível. Por outro, lado saber que existe um militar da capacidade e conhecimento de Villas Boas no comando do Exército é um alívio em tempos tão bicudos.

Durante o período da ditadura civil militar (64-85), a intelectualidade civil apelidou a “linha castelista” do exército de “pessoal da Sorbonne”. A fina ironia desnudava a total falta de capacidade técnica e conhecimento que era característica dos oficiais “de caserna” da “linha dura”. A comparação entre estes dois grupos de militares, mostrava a “linha dura” claramente despreparada para outra função que não a militar. Assim, o grupo apoiador do general Castelo Branco destacava-se do anterior de forma tão evidente que – ironicamente –  parecia que eram oriundos da “Sorbonne”, a universidade ícone da intelectualidade ocidental da época. Pode-se dizer que hoje nosso general comandante tem um pensamento mais progressista, sólido e acurado que qualquer dos “notáveis” que nos governam por indicação de Temer. Em tempos em que o Papa é mais progressista que roqueiros brasileiros da década de 80, Villas Boas faz história.

Comentários

imagem de JoaoMineirim

JoaoMineirim

Tentar ser razoável quando se

Tentar ser razoável quando se está rodeado de  gente estúpida pode ser muito perigoso.

imagem de Carlos Alberto Freitas Lima

Carlos Alberto Freitas Lima

FALTA AINDA UMA EXPLICAÇÃO MAIS DINÂMICA SOBRE EUA AMAZÔNIA.

O general falou sobre observadores americanos, muitos jornalisatas falam em presença militar americana na amazônia, Faltou falar em como se dará essa observação, se com preseça militar ou não. Sobre a base de Alcantara também não ficou lucido.

imagem de Rui Ribeiro

Rui Ribeiro

Não vejo nem papa nem roqueiros dos anos 80 progressistas

O Papa não é mais progressista do que o Lobão e o Roger (do Ultraje a Rigor). O Papa é menos reacionário do que os antecitados ‘roqueiros’.

imagem de Caio Suller Giovanni

Caio Suller Giovanni

Tive uma boa surpresa com as

Tive uma boa surpresa com as falas do general.

Sobre as ONGs atuando junto dos indígenas, isso é culpa do exército. Durante a ditadura eles mataram 8 mil indígenas para contruir uma rodóvia e permitiram que genocidas como Ênio Pipino matassem outros tantos pela terra. Então espero que o “plano de inserção” para o progresso da Amazônia não seja o tradicional rolo compressor que passa por cima de tudo e de todos.

http://istoe.com.br/massacre-de-indios-pela-ditadura-militar/

sem compromisso e transformação…

o desespero existencial de um bom general nunca deixará de ser o mesmo de um bom soldado da fronteira mas veio em boa hora

Na verdade o general bateu

Na verdade o general bateu firme no Temer mas acho improvável que o inominável presidente arrisque guilhotina-lo para substituir por outro general mais docil à sua vontade. Ele não tem força política pra isso e corre sim o sério risco de ser guilhotinado pelo exercito. Ele estará se fiando no Etchegoyen?