De origem medieval, Sífilis chega discretamente e pode matar, por João Luiz Vieira

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Do São Paulo São

De origem medieval, ela chega discretamente e pode matar. Não se engane

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por João Luiz Vieira
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Começa com uma ferida no prepúcio, nos pequenos lábios, na parede vaginal, no ânus, na boca, na língua, nas mamas e nos dedos das mãos. Que não sangra. Nem dói. Mas incomoda. Dependendo do tamanho, você pode até pensar que é uma espinha fora de hora. Se friccionar, inclusive, pode liberar um líquido transparente.
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De repente, assim como surgiu do nada, ela some sem se despedir, depois de três a 12 semanas. Só que ela continuará em seu corpo, fortalecida para a segunda fase, a dominação. É quando surgem as manchas vermelhas na pele, na boca, no nariz, nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, além de deixar marcas nos órgãos internos.
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Haverá, ainda, íngua na região genital, dor de cabeça, dor de garganta, dor muscular, mal estar, febre, falta de apetite, queda de cabelo e perda de peso. Novamente, isso aparece e desaparece, dando-lhe sustos na aparência. Você ficará bem feio ou feia, e pode ter crise de pânico por isso.
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Os escritores Oscar Wilde (1854-1900), James Joyce (1882-1941) e Charles Baudelaire (1821-1967), assim como os compositores Ludwig von Beethoven (1770-1827), Robert Schumann (1810-1856), Franz Schubert (1797-1828), os pintores Van Gogh (1853-1890), Paul Gauguin (1848-1903), Toulouse Lautrec (1864-1901) e, provavelmente, o rei francês Luiz XV (1710-1771), Lenin (1870-1924) e Adolf Hitler (1889-1945) teriam sido vítimas dela, a sífilis.
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Esse é o modus operandi da infecção, herança da bactéria Treponema pallidum, que em sua fase terciária pode levar a óbito, além de demência. Sem contar sua forma congênita, transmitida por grávidas a seus bebês, que podem sofrer malformações no sistema nervoso, perder a visão ou a audição e até mesmo morrer.
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Em 2010, foram notificados 1.249 casos de sífilis adquirida no Brasil, a que se pega através da relação sexual sem camisinha. Em 2015, apenas cinco anos depois, esses números saltaram para 65.878, um aumento de mais de 5.000%. É uma epidemia, e como se pode notar, pelos anos de vida e morte dos citados acima, é doença quase medieval.
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Quase, não. É medieval. Os primeiros relatos datam dos primórdios da Idade Média, entre os séculos V e XV, quando se alastrou pela Europa.  Na época, dizia-se que a infecção era uma vingança da América contra os colonizadores europeus: Cristóvão Colombo teria regressado para o Velho Mundo carregando nas caravelas a bactéria da nova doença.
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A penicilina, o antibiótico usado para exterminar a bactéria só foi descoberta em 1928, por isso usava-se mercúrio para combatê-la àquela época. A diminuição de casos no século XX também foi reforçada com a campanha mundial a favor do uso de camisinha como prevenção à aids. Sífilis e aids são apenas 12 das infecções sexualmente transmissíveis (IST) plenamente ativas no Brasil.
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As outras dez IST são cancro mole, clamídia/gonorreia, condiloma acuminado (HPV), Doença Inflamatória Pélvica (DIP), donovanose, hepatites virais, herpes, infecção pelo vírus T-linfotrópico humano (HTLV), linfogranuloma venéreo e tricomoníase.
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De acordo com o Ministério da Saúde, elas são consideradas IST por serem transmitidas, principalmente, por contato sexual sem o uso de camisinha, com uma pessoa que esteja infectada. Absorvidas pelo organismo através da atuação de quatro tipos de micro-organismos (vírus, fungos, bactérias e protozoários), elas geralmente se manifestam por meio de feridas, corrimentos, bolhas ou verrugas.

‘Há várias hipóteses sobre o aumento da incidência de IST, não só da sífilis, em todo o mundo. De médicos, como, por exemplo, no caso da IST em questão, o desabastecimento da penicilina benzatina por restrição de matéria-prima para sua produção, a comportamentais.
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As gerações Y e Z não viram amigos da mesma geração defiando à sua volta, como era comum nos anos 1980 e até meados dos anos 1990 por causa da expansão da aids, não frequentaram enterros semanais e, hoje, parecem estar a par do sucesso de tratamentos antirretrovirais.
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Por isso, relaxaram na profilaxia e apostam que podem viver bem com qualquer IST, mesmo as mais graves, caso de aids, sífilis, hepatites e herpes. O que, em si, é um erro, já que a disciplina é rigoríssima, onde o menor descuido pode reforçar a atuação do microorganismo e há muitos efeitos colaterais. Na vida profissional, na sala de estar e na cama’.
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Informações importantes no site do Ministério da Saúde.
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João Luiz Vieira é jornalista profissional há 30 anos, roteirista de TV, autor de teatro, coordenou os livros Sexo com Todas as Letras (e-galaxia, esgotado) e Kama Sutra Brasileira (Planeta), é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduado em Políticas Culturais e Educação Sexual. Escreve quinzenalmente no São Paulo São. Para falar com ele: vieiraluizjoao@gmail.com “Sexo sem Medo.“ é o canal do João no Youtube.