06-09-2017, 8h16

Diálogo entre Joesley e Saud revela trama contra país

Conversa traz roteiro de como eles poderiam se safar da prisão
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KENNEDY ALENCAR
SÃO PAULO

A nota da JBS dizendo que Joesley Batista e Ricardo Saud mentiram no diálogo que deu origem a um pedido de investigação do Ministério Público traz uma versão que não fica de pé.

O roteiro do diálogo foi executado. O presidente Michel Temer foi gravado por Joesley. O senador Aécio Neves também, entre outras pessoas mencionadas. Procuraram o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, por exemplo.

O diálogo é grave porque revela uma trama de Joesley e Saud para buscar provas contra o presidente da República, políticos e ministros do STF. As menções a Marcelo Miller apontam um contato do então procurador da República enquanto membro da equipe de Janot.

Houve, portanto, uma trama contra instituições do país. A delação da JBS foi feita para que Joesley obtivesse provas a fim de se livrar da prisão. No meio do caminho, isso agravou a crise política e causou danos na economia. Portanto, é um crime grave.

Uma investigação de corrupção não pode ser feita dessa forma. Houve uma estratégia deliberada de criminalizar a política. Joesley diz a Saud que a saída é chamar todo mundo de bandido a fim de dizer o que Janot e o Ministério Público gostariam de ouvir. Criminalizar a política é um erro. No caso, ajudou e funcionou com Joesley até agora. Mas o que deve ser feito é punir políticos criminosos. A generalização ajuda os bandidos, sejam eles corruptores ou corruptos.

Segundo colegas de Janot no Ministério Público, ele deveria punir Marcelo Miller e Joesley. Ou seja, não haveria outro caminho para o procurador-geral da República.

No caso de Joesley e Saud, significaria cancelar os benefícios da delação e pedir a prisão deles. Diante do que veio a público, manter a imunidade judicial de Joesley e Saud seria premiar quem quis ludibriar a PGR e o país.

Pelo que se sabe até agora, o principal destaque do diálogo entre Joesley Batista e Ricardo Saud, delatores da JBS, é a eventual orientação do procurador Marcelo Miller, enquanto trabalhava na PGR e era braço direito de Janot, para que Joesley gravasse o presidente Michel Temer e outros políticos.

Se isso ficar comprovado, por mais que Janot diga que as provas continuam válidas se o acordo for rompido pelo delator, haverá um debate no STF sobre anular as provas em geral e a conversa entre Joesley e Temer em particular. Os trechos que vieram a público até agora sugerem que Miller orientou Joesley como sair a campo para colher provas e evitar a prisão.