Moro usa a versão da mídia, e não a do réu, em processo contra Lula

Ao contrário do que Moro cogita em despacho assinado nesta segunda (2), em nenhum momento a defesa de Glaucos da Costamarques disse oficialmente que ele assinou todos os recibos de aluguel em 2015
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Jornal GGN – O juiz Sergio Moro decidiu surfar nos erros factuais que alguns veículos de comunicação cometeram em reportagens sobre os recibos de pagamento de aluguel apresentados pela defesa de Lula, na semana passada. O magistrado atribuiu a Glaucos da Costamarques, dono do imóvel alugado à família do ex-presidente, uma fala que ele nunca disse oficial ou extraoficialmente.
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Em despacho assinado nesta segunda (2), Moro escreveu: “A Defesa de Glaucos da Costamarques, em petição do evento 1.118, reitera que o acusado somente passou a receber os aluguéis ao final de 2015 e que teria assinado os recibos, todos ou em parte, ao final de 2015 quando estava hospitalizado. Requer diligências.”
Mas na petição a que Moro se refere, a defesa de Glaucos não diz em nenhum momento que seu cliente assinou “todos” os recibos ao final de 2015. O que a defesa do delator informal de Lula alega, agora que foi confrontada com os comprovantes de pagamentos feitos entre 2011 e 2015, é que os papéis “referentes a 2015” foram assinados numa tacada só.
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“Em dia próximo, seguinte à visita do Dr. ROBERTO TEIXEIRA, em data não exatamente precisada, mas entre 07/12/2015 e 29/12/2015 GLAUCOS DA COSTAMARQUES também recebeu no Hospital Sírio-Libanês, a visita do contador JOÃO M. LEITE, que foi colher as assinaturas nos recibos, referentes ao ano de 2015″, diz a defesa de Glaucos.
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Quem inventou que Glaucos assinou todos os recibos de uma vez foram alguns jornais, na semana passada. O Estadão publicou, no dia 28, que o engenheiro havia dito que assinou os recibos apenas de 2015 de uma só vez. Já o Valor, em reportagem do mesmo dia, disse que o réu assinou todos os recibos de 4 anos de serviço juntos. O Globo reproduziu o erro no final de semana e recebeu um pedido da defesa de Lula para corrigir o texto.
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Na decisão desta segunda, Moro autorizou o pedido de Glaucos para receber informações do Hospital Sírio Libanês. O engenheiro, réu na mesma ação penal em que Lula é acusado de receber benefícios da Odebrecht, sustenta que não recebeu os valores do aluguel de um apartamento em São Bernardo do Campo entre fevereiro de 2011 e novembro de 2015. Naquele último mês, o advogado Roberto Teixeira teria se encontrado com Glaucos no Sírio e informado que, a partir de então, os valores seriam pagos normalmente. Teixeira nega a existência desse diálogo.
Moro pediu ao Sírio Libanês:
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a) informação se Glaucos da Costamarques, CPF 004.022.651-49, esteve internado no respeitável Hospital em novembro e dezembro de 2015 e, se positivo, o período específio;
b) informação se o Hospital Sírio Libanês mantém registro dos visitantes no estabelecimento e, se positivo, para que seja enviada cópia dos registros dos visitantes a Glaucos da Costamarques no referido período de internamento; e
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c) ainda se positivo, se constam no período de internação de Glaucos da Costamarques registros de visitas ao respeitável Hospital de Roberto Teixeira, CPF 33.451.038-20, ou de João M. Leite (aparentemente João Muniz Leite) e, se positivo, para que seja enviada cópia dos registros de suas visitas.
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O prazo de resposta é de cinco dias.
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A POLÊMICA DOS RECIBOS
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A resposta do Sírio Libanês ao juiz, contudo, não vai explicar questões importantes sobre os recibos que, agora, a defesa de Glaucos tentam desqualificar.
Ele não explicou, por exemplo, quando se deram as assinaturas dos comprovantes relativos aos anos de 2011, 2012, 2013 e 2014.
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O GGN também perguntou à defesa de Glaucos por que ele não havia contado a Moro que assinou os recibos de uma só vez, supostamente a pedido de Teixeira. A assessoria não retornou ao contato da redação, feito na semana passada.
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Além de indicar que assinou de uma só vez os recibos de 2015, Glaucos disse na petição que os recibos referentes à locação em causa foram exigidos do defendente, em razão da existência do contrato de locação, e corresponderam à confiança, amizade e grande estima que devotava ao primo, JOSÉ CARLOS COSTA MARQUES BUMLAI.”
“O fato de os recibos terem sido declarados à Receita Federal no Imposto de Renda deu-se em razão da própria existência do contrato de locação, da promessa de pagamento de todas as parcelas pelo seu primo e da orientação de que deveria, sim, declarar tais valores e sobre eles pagar o respectivo imposto”, afirmou, para justificar a suposta fraude na declaração.
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Em nota, a defesa de Lula disse que a cobertura da mídia sobre os recibos apenas “deturpa” a acusação dos procuradores da Lava Jato, que não conseguiram estabelecer relações entre as vantagens que imputam ao ex-presidente e contratos entre a Odebrecht e a Petrobras.
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Sobre as assinaturas, a defesa ainda afirmou que “hoje não há qualquer dúvida de que eles foram assinados pelo proprietário e em diferentes períodos e, portanto, são documentos idôneos e aptos a fazer a prova de que D. Marisa honrou sua obrigação contratual e fez o pagamento dos aluguéis.”