As mãos e as vozes que empurraram o reitor da UFSC para a morte, por Luís Nassif

File source: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luis_Roberto_Barroso_2014.jpg

Luís Roberto Barroso tem fixação por sua imagem pública. Algumas denúncias estampadas em blogs de Curitiba, encampadas pelos blogueiros de Veja, foram suficientes para deixa-lo de joelhos.

As denúncias falavam da compra de um apartamento em Miami pela senhora Barroso, através de uma offshore. Mesmo casados em comunhão de bens, compartilhando um escritório bem-sucedido, o nome de Barroso não entrou na história, até o eixo Curitiba-Veja entrar no tema.

E o Ministro Barroso decidiu defender sua imagem com as armas que conhecia: abandonou suas teses legalistas, seu passado garantista e decidiu aderir aos agressores. Sua estreia se deu na votação da autorização para a prisão do réu após condenação em Segunda Instância.

Dali em diante, surgiu um novo Barroso, defensor dos métodos policiais, punitivista convicto, defensor da tese de que ou o Brasil acabava com a corrupção ou a corrupção com o Brasil. Não a corrupção corporativa de seus clientes, ele que se vangloria de preparar anteprojetos de lei para que os clientes possam oferecer a seus deputados de estimação; não a do Poder Judiciário, ou mesmo a impunidade sua ex-cliente, a Globo. Mas a corrupção do inimigo, a defesa do direito penal do inimigo que chegou ao auge com sua defesa explícita do Estado de Exceção.

Desde então, Barroso se tornou o guru da Lava Jato e dos punitivistas do Ministério Público Federal, o profeta do Estado de Exceção, o principal estimulador das bestas que habitam os porões, onde nenhum direito é respeitado. Suas frases se tornaram os bordões prediletos dos procuradores nas redes sociais, o alimento legal que engordava os monstros gerados da barriga da Lava Jato.

E das entranhas da Lava Jato a delegada da Polícia Federal Erika Marena saiu de Curitiba e transportou os métodos da Lava Jato para Santa Catarina. Estrela de cinema, tinha que manter a fama de implacável.  Lá, encontrou como chefe o delegado Marcelo Mosele que, ao assumir a superintendência da PF em Santa Catarina, discursou afirmando que a corrupção é a maior ameaça à humanidade.

Era esse o clima dominante na PF quando chegaram denúncias envolvendo a Universidade Federal de Santa Catarina. Mencionavam desvios que teriam ocorrido desde 2006 nos cursos de educação à distância. O reitor assumirá apenas em 2016.

No início, denúncias anônimas. Depois, denúncias personalizadas, uma da professora Tais Dias, outra do corregedor da UFSC, Roberto Henkel do Prado. Escolhido em uma lista tríplice, o corregedor responde ao reitor e também à CGU (Controladoria Geral da União).

Quando o reitor Luiz Carlos Cancellier pediu acesso ao inquérito, imediatamente foi denunciado por Henkel, como tentativa de obstrução da Justiça. Nesses tempos bicudos, as longas mãos da CGU criaram núcleos de poder em cada universidade, e Henkel pretendeu exercê-lo com a autoridade dos moralistas e com a plenitude dos superpoderosos. Imediatamente obteve a adesão de Orlando Vieira de Castro Jr, superintendente da CGU em Florianópolis. E o caso foi parar com o procurador da República André Stefani Bertuol.

A Polícia Federal foi acionada e a sede de sangue atingiu a juíza federal Janaína Cassol Machado, que, consultado o procurador Bertuol, autorizou a prisão preventiva dos professores.

Em Brasília, o eminente Ministro Barroso despejava frases feitas

– Para ser preso, no Brasil, precisa ser muito pobre ou muito mal defendido.

Ou então:

– Pense o que você poder fazer diariamente pelo bem.

Lá embaixo, nos porões da nova ditadura, a delegada Marena, o delegado Mosele, comandavam policiais treinados nas artes da humilhação. Os professores foram despidos, ficaram nus, foram jogados em celas

Enquanto isto, Barroso, que se tornou um Ministro choroso quando a imprensa meramente flagrou-o em uma afirmação relativamente racista em relação a Joaquim Barbosa, que se desmanchou em lágrimas tal como uma donzela com a reputação colocava em dúvida, continuava lançando seus dardos no Olimpo e alimentando com princípios pútridos a carne que era servida às hienas.

No dia seguinte, uma juíza substituta, Marjorie Feriberg, ordenou a libertação do grupo. Foi publicamente admoestada por Janaína, que se atirou sobre ela como uma harpia da mitologia.

Restou a Cancellier a única saída que encontrou para a desonra que se abateu sobre ele: o suicídio.

Depois da tragédia, apareceram notícias dizendo que a única acusação formal contra ele era a de ter impedido a investigação.

Que seu sangue caia sobre todos seus algozes.

Mas, especialmente, sobre os que destruíram os alicerces dos direitos individuais pensando exclusivamente em seus próprios interesses.

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Comentários

imagem de José Eduardo De Lucca

José Eduardo De Lucca

Manifestação do Procurador Geral do Estado de SC

“O Procurador Geral do Estado vem a público manifestar profundo pesar pelo falecimento do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, Magnífico Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, bem como solidarizar-se com seus familiares e amigos.

A morte de Cancellier enluta Santa Catarina pela perda de um de seus filhos mais ilustres, um homem digno, de poucas posses, que devotou os últimos anos de sua rica trajetória profissional à nobre causa do ensino, da pesquisa e da extensão universitárias.
A tragédia de sua partida ocorre sob condições revoltantes. As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida.

Por isso, respeitado o devido processo legal, é indispensável a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas.

Que o legado do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo seja, em meio a tantos outros bens que nos deixou, também o de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes, sob o falso pretexto de garantir a eficácia de suas investigações”.

João dos Passos Martins Neto
Procurador-Geral do Estado de SC

Barbárie

Só entendemos a importância do Estado de Direito quando somos vítimas da barbárie do Estado!

imagem de Lucio Vieira

Lucio Vieira

Pobres mentes obtusas nos trazem a tristes e negros tempos

Raduan Nassar: “Vivemos tempos sombrios”Bertolt Brecht: “Realmente, vivemos tempos sombrios!”

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Ferreira Pinto

  Que essas autoridades

Que essas autoridades celebridades façam suas reflexões, a começar pelo ministro Barroso.

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gaúcho

Não canso de dizer, o que

Não canso de dizer, o que mais assusta no país é que toda a instabilidade política e institucional vem de quem deveria zelar pela higidez do sistema.

Joaquim Barbosa, aquele que se tinha grandes esperança mas se viu tornou-se um negro domesticado pela globo, abriu a porteira para as condenações sem necessidade de prova que fomentam o atual estado de exceção.

O suicídio do reitor foi o clímax do desrespeito às leis, à honra das pessoas, à família dos ‘suspeitos’.

Parabéns Nassif seu texto é maravilhoso e servirá de documento-registro histórico da bárbarie que estamos mergulhados pela ação de moleques irresponsáveis.

Espero que estes que levaram uma pessoa inocente à morte tenham bons sonhos.

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Álvaro Noites

E pensar que muitos reitores

E pensar que muitos reitores de Universidades públicas eram entusiastas desse Estado de Excessão Policial quando era “pau no PT, no Lula e na Dilma”.

No mais me pergunto: Ficará “por isso mesmo” as ações desses barnabés guiados pela mídia?

Esse suicício teve o efeito esperado pelo reitor: todo mundo está culpando essas hienas que o Nassif listou (desde os Barnabés denunciantes, pasando pela barnabé da PF até os barnabés togados).

Barbárie federal

Grande Nassif, muito oportuna a sua postagem.

Ao contrário da grande mídia espetaculosa que se delicia com atiradores de Las Vegas e com as bravatas de Trump, alguém se lembra de pautar o crime cometido contra o reitor da UFSC e sua equipe, ao serem conduzidos de forma abusiva e humilhante à cadeia por atos cometidos em gestão anterior.

A polícia federal e a justiça brasileira perderam completamente a noção de qualquer sentido de respeito e civilidade ao tratar educadores dessa forma e se tornaram instrumentos da barbárie.

Cancellier foi mesmo muito bravo com o seu ato, ao contrário dos Paloccis da vida, que se borraram de medo e traíram a si mesmo e a seus companheiros e serviram de pasto para essa mesma grande mídia que traz vergonha ao nosso país. Como professor de uma federal, me sinto revoltado com o acontecido em SC.

Cumprimento-o mais uma vez pela postagem. Um abraço

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fernando oliveira

O que essa gangue queria

O que essa gangue queria mesmo é que, ao invés desse reitor, quem se tivesse suicidado fosse LULA. Breve, breve, teremos um golpe militar dentro do golpe quadrilheiro para manter as aparências “NESSA PORRA”. BRASIL, ORDEM E PROPINA !!!!!

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Jonas Carvalho

O assassinato do Reitor

Nassif dá de bandeja as pistas para uma possivel investigacao do assassinato do Reitor. Brilhante! Isto é jornalismo sério! Mas quem vai investigar a Policia Federal? o Barroso?

 

Mas e a nova PGR?

Temos uma nova (velha e carcomida?) PGR.

Ficará silenciosa como já ficou diante de gorilas golpistas?

Será que sangue de gente como a gente espalhado no asfalto despertarão a donzela da letargia?

Cadê a PGR??:??????????

 

O apagar das luzes pelo medievalismo em marcha

O suicídio do reitor da UFSC, acusado, preso e ultrajado por crimes não cometidos, é sintomático dos danos causados pelos excessos do judiciário e da PF.

As prisões-espetáculo, por indício e por suposições não apenas representam abusos e excessos de poder que devem ser freados, condenados e punidos, mas também refletem a incompetência generalizada que reina nestes órgãos, com uma maioria de funcionários imersos num medievalismo jurídico e avessos à razão.

Trata-se de uma maioria de especialistas bitolados, programados para decorar leis e formular discursos retóricos vazios, mas incapazes de proceder a uma investigação científica, logicamente estruturada sobre fatos materiais e objetivos.

Tentam compensar sua mediocridade com arrogância e vaidade que, como ensina a psicanálise, apenas refletem as fraquezas e pequenezas que os habita e os angustia diuturnamente.

Outrossim, o suicídio do reitor carrega a simbologia do apagar das luzes da razão e da ciência pela onda medieval que toma conta de Pindorama.

Esta onda medieval vem se convertendo, na prática, no sucateamento das Universidades Públicas, no cancelamento de projetos e fundos para pesquisas científicas e tecnológicas, de bolsas de estudos para pós-graduações e pós-doutorados, em projetos como o Escola Sem Partido, na perseguição a professores secundaristas portadores de um discurso crítico, no ensino religioso e não de Ciência da Religião no país.

O medievalismo judiciário e midiático, ao destruir reputações, integridades e dignidades, destrói a humanidade das pessoas.

Um dos pilares do ideal moderno de humanidade é o princípio de que todos os indivíduos são portadores de direitos naturais invioláveis, porque são trincheiras da vida, da dignidade e da humanidade que habitam em cada um e que não podem ser violadas pelo Estado.

Deste modo, quando o Estado viola os direitos individuais ele está brutalizando a humanidade do indivíduo, isto é, negando-a.

O judiciário, como guardião das leis, é, também, uma trincheira institucional contra a violação da condição humana. Portanto, o mais nefasto nisso tudo é que a dignidade e a humanidade do reitor foi ultrajada pelo poder que as deveria zelar acima de tudo.

Isso significa que o medievalismo judicial descaracteriza e adoece o judiciário, converte-o de poder humanizador a poder desumanizador.

Portanto, o ato extremo do reitor denuncia este medievalismo, mas também expressa o que ele significa para o ser humano, para o próprio judiciário e o desespero que é capaz de produzir na sociedade.

imagem de José Eduardo De Lucca

José Eduardo De Lucca

Manifestação do Procurador Geral do Estado de SC

“O Procurador Geral do Estado vem a público manifestar profundo pesar pelo falecimento do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, Magnífico Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, bem como solidarizar-se com seus familiares e amigos.

A morte de Cancellier enluta Santa Catarina pela perda de um de seus filhos mais ilustres, um homem digno, de poucas posses, que devotou os últimos anos de sua rica trajetória profissional à nobre causa do ensino, da pesquisa e da extensão universitárias.
A tragédia de sua partida ocorre sob condições revoltantes. As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida.

Por isso, respeitado o devido processo legal, é indispensável a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas.

Que o legado do Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo seja, em meio a tantos outros bens que nos deixou, também o de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes, sob o falso pretexto de garantir a eficácia de suas investigações”.

João dos Passos Martins Neto
Procurador-Geral do Estado de SC

Barbárie

O Golpe de Estado entrou definitivamente no terreno da barbárie e não tem mais volta. Não bastasse a desarmonia entre os poderes (art. 2º da CF) causada pelo protagonismo criminoso do Poder Judiciário, agora seus agentes começaram a produzir cadáveres.

Manchadas de sangue estão as mãos de todos eles por esse crime contra a humanidade, mas também as mãos dos milhares de brasileiros que gozam e aplaudem por eles, incluídos jornalistas e editores da grande mídia. A violência fascista que caracteriza essa turba, como ensinou M. Chauí (link), só tem um fim: a destruição do outro. Nada mais.

Faltou incluir no esquema acima a Lava Jato, que paira sobre os céus de Santa Catarina como um zepelim de bronze. Sérgio Moro foi a serpente que pariu e acalentou essa barbárie. Todo juiz fascista depois de Moro quer ser o novo Moro. A chantagem que fizeram contra Barroso (devem ter outros ministros pedurados), provavelmente, foi um brinde da NSA no começo da operação. Esse é o caráter, essa é a ética pessoal que os move e que agora fermentou a massa apodrecida.

Desse matadouro não sairá um país novo. Hora de velar nossos mártires.

imagem de Jose B

Jose B

Diante da fragilidade dos

Diante da fragilidade dos indícios que levaram à prisão e, posteriormente, culminaram no suicídio do reitor da UFSC, todos os agentes públicos envolvidos na investigação deveriam ser afastados do caso. No momento, seria o mínimo.

Tratando-se de Brasil, a chance de não dar em nada é enorme.

Por este e outros casos, é fácil entender o porquê da rejeição a uma nova lei de abuso de autoridade. A lei editada nos tempos da ditadura parece servir bem a essa gente.