Um grito por justiça em meio a lágrimas no funeral do reitor: “Temos que parar os neofascistas”. Por Joaquim de Carvalho

Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC

Acabo de assistir, com lágrimas, ao vídeo de duas horas e doze minutos sobre a sessão solene fúnebre do Conselho Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina em homenagem ao reitor Luiz Carlos Concellier de Olivo.

Na sessão solene fúnebre do Conselho Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, as manifestações se sucedem. Falando em nome de todos os reitores que passaram pela universidade, o decano Ernani Bayer cita uma frase em latim, imortalizada pelo senador Cícero, numa contenda com o inescrupuloso senador Catilina, no Imperio Romano:

“Quo usque tandem abutere patietia nostra?”

Ernani mesmo traduz:

“Até quando abusará da paciência nossa?”

Me vem a imagem da delegada Erika sorridente, na foto com a também sorridente atriz Flávia Alessandra, que a interpretou no filme sobre a Lava Jato.

Que autoridade precisa apresentar provas quando se tem uma mídia que a apresenta como herói acima do bem e do mal?

Na sessão solene fúnebre, no palco onde está o caixão com o corpo do reitor Concellier, uma faixa é aberta:

“Democracia de Luto em Luta. Aqui mais uma vítima do estado de exceção e sua mídia”. 

Desembargador Lédio Rosa de Andrade

O desembargador Lédio Rosa de Andrade, amigo de infância do reitor, seu colega no Centro de Ciências Jurídicas, sobe ao palco. Ele manca de uma perna e segura na mão de uma jovem, talvez aluna.

Um gigante na tribuna. Ele chama o reitor pelo apelido de infância, Cal. Transcrevo toda a fala, pela força da mensagem:

“Tentarei, num esforço muito grande, manter o mínimo de racionalidade, porque, confesso, que, neste momento, o sentimento, a emoção me toma. Uma tristeza profunda me corrói por dentro. Uma raiva forte. Uma indignação maior ainda diz que nós temos que ir adiante, que não podemos parar, porque o momento por que o nosso país passa é grave, é perigoso e precisa de ação.

Acioly, Julinho, que saudade da rua Santos Dumont, onde morávamos como crianças, onde passamos nossa juventude, onde jogávamos bola na rua e xadrez dentro de casa, tênis de mesa nos dias de chuva, onde cometemos nossos primeiros crimes, temos que confessar, pois ali furtamos umas goiabas, também rosas para nossas namoradas. Todos nós juntos, você era pequeno, Julinho, Acioly um pouco mais adulto, eu e o Cal da mesma idade.

Frequentamos o Colégio Deon (grafia pode não estar correta), brincamos, brigamos, estudamos, porque éramos de famílias humildes. Só tínhamos a nós e a nossa capacidade. E assim seguimos adiante.

Chegamos a esta universidade como alunos. Alunos de direito. E enfrentamos a ditadura militar, a arma no governo. O reitor Ernani, que há pouco falou, administrava tendo que aturar, na marra, um sala para os agentes da polícia que fotografavam, que nos espionavam, que poderiam nos prender se escutássemos o Chico Buarque ou o Vandré.

E que ironia da história e do destino, porque foi naquele hall da reitoria que eu, o Cal e tantos outros líderes estudantis, como o Adolfo, já falecido, o Jailson Lima, que jantamos juntos, e o Julinho, esta semana lá em casa com o Cal. Ali, naquele hall, nós fizemos as maiores assembleia do tempo da ditadura. Milhares e milhares de alunos sentamos no chão e nós usávamos a escada como palanque para denunciar a prepotência e para defender a autonomia e a liberdade da universidade pública e gratuita.

Nós sabíamos que nós não estávamos no estado democrático de direito. Nós sabíamos que poderíamos ser presos. Nós sabíamos que tivemos colegas e amigos presos, torturados e alguns assassinados, porque aquele era o regime que nos administrava.

Mas não esmorecemos, fizemos a nossa luta. E ganhamos, porque acabamos com a ditadura. Ela terminou. A vida seguiu.

O Cal foi para Brasília acompanhar o combatente senador Wedekin. Voltou e terminou seu curso de direito. Fez metrado, fez doutorado, e eu tive a honra de estar nas duas bancas dele. Discutíamos, conversávamos, estudávamos, pesquisávamos, porque sempre fomos contra o fundamentalismo, sempre fomos contra os argumentos fáceis, néscios, cheios de verdade, mas ocos, vazios, fórmulas vazias.

Trocamos de lado. De estudantes passamos a professores desta casa. E como Cal se orgulhava disso. Como ele gostava disso. Como ele tinha nisso a sua vida. E da vida humilde da rua Santos Dumont, do nosso querido Tubarão, construiu outra vida, típica de professor aqui em Florianópolis. Apartamento de professor. Nem carro tinha. Vida de professor, prática de professor.

E foi nestas condições que chegou a seu maior sonho, a reitoria desta universidade. Claro que todos nós temos vaidade, todos nós temos um ego e precisamos dele para viver o dia a dia. É claro que chegar a reitor tem um pouco de ambição, de todos que lá chegaram. Mas, acima de tudo, Cal tinha vocação, tinha o desejo pelo ensino, tinha a vontade de fazer da UFSC o que estava fazendo, com sua equipe, uma das maiores universidades deste país.

E vejam que coisa: a ditadura não nos prendeu. E nós achávamos que tínhamos derrubado. Cometemos um erro porque os ditadores de espírito nunca morrem. Estão sempre aí, estão aqui, neste momento, alguns deles, esperando a hora de voltar. Sempre.

Esta luta não acaba. Nunca acaba esta luta. E se nós descansarmos, eles voltam. Eles voltam. Quando se fala em estado democrático de direito, nós estamos falando de muito sangue, de muita guerra, de conquistas feitas com suor e com esforço de nosso antepassados.

Quando se fala em ampla defesa, estado democrático de direito, contraditório, isso não é brincadeira.

Esse néscios que estão por aí dizendo bobagem não sabem o que é uma ditadura. Não sabem que eles serão os primeiros a clamar por estado democrático de direito daqui a pouco.

E foi dentro dessas condições que o Cal se deparou com a mais perfeita ditadura, que é a ditadura feita em nome da moral, a ditadura feita em nome da justiça, a ditadura feita em nome da democracia.

É claro que estado democrático de direito precisa de imprensa livre, é claro que estado democrático de direito precisa de independência do Judiciário, para que o Judiciários e os juízes julguem livremente, sem pressão. Só que também é claro que essas instituições, absolutamente importantes para a democracia, a cada dia, a cada momento, são deturpadas.

Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade de empresa, privada, para impor desejos privados à coletividade.

Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam.

Como professor de criminologia, eu levei meus alunos para a penitenciária. E me levaram no setor de segurança máxima, onde o Cal passou uma noite. Eu tive uma crise de pânico pela opressão arquitetônica. Não entrei. Saí correndo lá de dentro.

E fique a imaginar — eu estava por livre e espontânea vontade, com meus alunos —: e se tivessem tirado minha roupa? E se tivessem me feito uma revista íntima? E se tivessem me acorrentado nos pés e nas mãos? Eu morreria lá naquela noite. Eu não sairia de lá vivo. E o Cal saiu.

O Cal, que sempre lutou com flores na mão contra canhões, que sempre usou a palavra contra a insensatez, que sempre conversou e que nunca causou mal a ninguém, acabou encontrando a pior das ditaduras e oprimido. Acabou encontrando aquilo por que nenhum de nós quer passar.

E eu termino falando: o Cal sempre foi um professor e morreu como professor, nos dando a última lição. A última lição do nosso mestre foi de que contra a mais absoluta injustiça, que contra o terrorismo de estado, só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive uma histeria coletiva. Só a tragédia… só a tragédia…

Esta noite, com dificuldade de dormir, eu fiquei a pensar: quando a humanidade errou e não parou Hitler no momento certo? Quando a humanidade errou e não parou Mussolini no tempo certo? E fiquei pensando: eles estão de volta. Será que nós vamos errar de novo e deixá-los tomar o poder, para nós termos que trocar as flores e pegar de novo em armas para fazer outra guerra e derrubá-los?

Será que já não basta? Será que não é hora de nos unirmos e exigirmos consequências, se a família assim quiser? De irmos até as últimas consequências pedindo que sejam apurados esses atos de arbitrariedade?

Já não é hora?

Bertold Brecht já nos disse. Já prenderam não só nossos vizinhos. Já estão levando nossos amigos próximos e vão nos levar.

A vida é isso, companheiros. É luta permanente. E a democracia não permite descanso. Não permite descanso.

Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria. Como desembargador, tenho vergonha. 

Porcos e homens se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los. Vamos derrubá-los novamente.”

Outra imagem me vem à mente. O homem alto Marcelo Bretas com a mulher, ao lado de Sergio Moro com a mulher, andando sobre o tapete vermelho da estréia do filme sobre a Lava Jato.

Eles estão de volta.

Usam toga e são incensados pelas empresas de jornalismo e de entretenimento, numa aliança que destrói reputações e mói ossos, com gritos de dor e desespero que começam a se tornar audíveis.

A imagem que agora me vem à mente é de outra natureza. Elis Regina cantando:

“Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente.”

 

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Deduragem de colegas foi o que mais doeu no reitor da UFSC e o fez desistir. Por Renan Antunes

O bilhete de suicida do reitor

Por Renan Antunes de Oliveira, em Florianópólis (SC)

PRESO SEM PROCESSO

Ora, gente, que pergunta boba: ele não era réu de coisa nenhuma! 

Nem processado. No caso dele tudo começou de pernas para o ar, direto na cadeia – o crime a PF ia tentar encontrar. 

O certo é que alguém na PF achou que ele tinha que sair da UFSC pra poder fazer seu trabalho. O MPF e a Justiça concordaram com a tese e paft, cadeia nele.

Para os amigos, familiares e muitos colegas, Cau não fez nada do que disseram. 

Ele começou a carreira como jornalista. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro aos 27, em 1985, trabalhou nos 15 anos seguintes entre a Câmara Federal e o Senado, como assessor parlamentar do ex-senador Nelson Wedekin (então no PMDB) – um dos poucos a defendê-lo desde a primeira hora, até o discurso final durante as pompas fúnebres. 

Um dirigente histórico dos comunistas foi ao enterro, mas era de uma corrente adversária. Fez questão de dizer que ele abandonou a militância de esquerda e deu uma guinada pro outro lado – segundo vários relatos, Cau nunca escondeu que votou em Aécio, apoiou o impeachment, alinhou com Temer e se dizia fã de Sérgio Moro.

A ESTRELA DO SHOW

Ser atropelado por desmandos conduzidos pela delegada PF Érika Marena, uma das queridinhas de Moro e do procurador Deltan Dallagnol – foi ela quem batizou a Lava Jata – é uma das ironias do drama.

No filme “Polícia Federal” o papel da delegada Érika cabe à atriz Flávia Alessandra. Ela esteve cotada para ser diretora da PF até novembro do ano passado, quando foi removida da força-tarefa de Curitiba. Promovida para baixo, acabou em Floripa, longe dos holofotes.

O caso da UFSC é o primeiro degrau notável da nova etapa da carreira dela. Cau, seu primeiro peixe graúdo desta fase – e ela já brilha de novo no livro de feitos da PF.

Érika pediu a prisão de Cau num vapt, baseada apenas na delação de dois colegas dele, como adiante veremos. No dia do anúncio ela segurava o microfone e enfrentava as câmeras com orgulho, como se tivesse prendido Bin Laden redivivo e acabado com a Al Qaeda.  

Hoje, da parte que se sabe do bilhete suicida, Cau escreveu “minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”, como se lê na foto. A doutora Érika não tá nem aí. Já mandou avisar que a investigação continuará.

E que prisão espetacular: 105 agentes foram mobilizados para prender o reitor e seis professores no campus universitário, numa das cidades mais pacatas do Brasil.

Cau foi levado de casa por agentes originalmente lotados em São Luiz do Maranhão. 

Em nome da PEC da economia, não tinha ninguém mais de perto pra tarefa??? A turma da terra de Sarney foi trazida a Floripa só para a perigosa missão de meter o reitor num uniforme laranja de presidiário? Ele foi algemado nos pés e mãos por agentes mascarados.

Pior: nu, Cau foi submetido a uma revista anal. A conferir se Geddel, Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha passaram por tamanha humilhação. 

Cancellier

Uma explicação plausível é que o pessoal não ia vir de tão longe para pouco. Como a PF estava proibida de apresentá-lo à imprensa, como muitas vezes faz, descontaram nele com a revista.  

Pouca gente defendeu Cau nos 18 dias entre a prisão e a morte – a maioria esperando para ver as cartas na manga da Polícia Federal.

LULA DEU O MAIOR APOIO

Com ele suicidado, choveram manifestações de apoio e passou de vítima a mártir.

O procurador-geral do Estado, João dos Passos Martins, divulgou uma nota de confronto, exigindo investigação. A posição foi entendida por muitos como pessoal, embora assinada pela instituição, já que os dois eram amigos desde a juventude, focas no mesmo jornal. Ela foi encampada pelo governador do estado.

Em menos de 12 horas a morte ecoou pelo Brasil. Até o ex-presidente Lula saiu em defesa de Cau, aproveitando para cravar que vivemos os tempos difíceis da Lava Jato – ele sabe bem.

Logo que se estabeleceu o link com a Lava Jato pela presença da delegada Érika, e ela usando os mesmos métodos de Dallagnol, os defensores de Cau partiram para o ataque, como se o caso dele fosse o primeiro.

Outra ironia do caso: ele não tinha o perfil preferido das vítimas dos procuradores e delegados da cruzada nacional contra corrupção. Era um homem limpo, discreto, manso e, acima de tudo, bem mais à direita do que os alvos do pessoal. 

Com sua imagem de conciliador e de fazer acordos com todo mundo, era muito criticado pela estudantada vermelha. Só chegou a reitor com o voto de funcionários e professores, cujo peso foi maior do que o dos alunos.

Cau fez carreira meteórica na UFSC, em 12 anos chegou a reitor. Ele formou sua chapa à reitoria em 2015, com o apoio da direita, para varrer a influência de PT, PSOL e PSTU no comando da universidade – decisão certa, já que eram os últimos dias do governo Dilma.

Ele foi nomeado ainda pelo ministro de Educação dilmista, Aloysio Mercadante, mas tomou uma baita vaia dos jovens. Paciente, aguentou calado e até garantiu voz aos adversários na cerimônia.

Cau ficou em cima do muro nos últimos dias de Dilma, à espera de Temer. Logo começou a se entender com o atual ministro, Mendonça Filho, alinhando-se aos novos tempos. Era pró parcerias com a iniciativa privada – mesma coisa que chamar o capeta no ambiente radicalizado do ensino público.

Para dizer a que lado do planeta Cau parecia agradar mais, aqui vai um indicador: quando estudantes picharam o muro da facu com alusões aos 80 milhões, quem saiu em defesa do reitor foram os saradões do MBL.

No fim, perderam todos: o desmonte do programa EAD pelo governo Temer se dá pelo corte de verbas. Ocorre que mesmo com bons resultados (só a UFSC formou 3 mil desde 2008), o programa está condenado por ter nascido no hoje amaldiçoado governo Lula. 

“PROVAS ROBUSTAS” E FAJUTAS

A paulada da PF no reitor deve deixar o EAD mais raquítico ainda – impossível saber se a busca de um problema policial no programa educacional veio antes ou depois da raquitização, ou se é sua pá de cal.

O que já se sabe com certeza é que a PF nunca teve e não tem contra o reitor as “robustas provas nos autos”, como fez acreditar de início. 

Se elas não existem, muito menos podem ter como base “gravações e documentos” implicando Cau na suposta tentativa de impedir investigações da corregedoria da UFSC, depois ampliadas pela CGU e pelo TCU.

A menção a estes dois órgãos na denúncia da PF deixa mais confiantes os repórteres que vão reproduzir as acusações. Dá mais credibilidade, afinal, os dois são reconhecidos bastiões da moralidade pública. 

O truque da PF para ralar um alvo como Cau é simples. 

O pessoal que acusa convoca a imprensa e anuncia os nomes dos suspeitos, oferecendo alguns números. Em seguida, mostra que o MPF concordou com as investigações iniciais e promete desvendar o caso – em geral, ainda não sabe direito o que aconteceu. A Justiça fornece um juiz que concorda em prender os suspeitos e deixá-los à mercê dos delegados e procuradores.

AULA DE FOFOCAS

Quando foi a vez de Cau, tudo o que a PF tinha como prova contra ele eram duas delações – ou, no popular, deduragem.

Uma foi do corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado. 

Para justificar a sua, ele se queixou à delegada que o reitor lhe retirou uma gratificação de mil reais mensais. Seria represália por ele, corregedor, não revelar dados da investigação que fazia no EAD ao reitor. 

A outra foi da professora Taisa Dias. É pífia. Não passa de dois parágrafos curtos. Ela teve um bate boca com Cau e se sentiu ameaçada – quem conhecia bem o homem jura que ela ficou falando sozinha já no primeiro parágrafo. 

Mas, seja como for, as duas fofocas tiveram o condão de jogar Cau na cadeia e do alto do shopping.

O depoimento da professora vale tanto como a lufada de ar que acaba de passar pela janela.

O depoimento do corregedor vale no máximo os mil reais que ele resmunga ter direito. 

O crime de obstaculização parece ser a pedalada fiscal de Cau.

Vejamos: a demissão do corregedor e sua imediata recontratação, numa reclassificação que incluiu quase 100 servidores no pacote, é que resultou na perda de gratificação, para todos.

FRETE PARA LUGAR NENHUM 

No fim, Cau foi para a tribunal da opinião pública como chefe de um desvio de 80 milhões. Na verdade, investigava-se se alguns professores ou servidores, e não o reitor, dividiram uns caraminguás por fora, ou se o frete de um ônibus foi o mais caro do que o de uma van.

Não há nada nos autos que justifique sequer o custo da operação policial contra a “orcrim” (os delegados adoram esta abreviação para organização criminosa). 

O corregedor Rodolfo Hickel do Prado

Só para trazer agentes de todo canto do país, metodologia da PF, gastou-se mais do que com os fretes supostamente superfaturados dos estudantes do EAD.

Numa frase: a PF usou um tiro de canhão para matar uma formiga. 

Vapt vupt os 80 milhões (lembre-se, mais do que as malas e caixas do Geddel) encheram os olhos e as manchetes da mídia. Um reitor em algemas e a história virou um must, todo dia realimentada. 

Nos 18 dias de seu calvário, Cau parecia o gaiteiro de bailão que durante uma briga generalizada leva uma cadeirada na cabeça: veio desabando, enquanto tentava assimilar o cadeiraço. 

Tirado de casa e jogado na prisão, tirado da UFSC e jogado às feras no ringue da opinião pública, ele desabou de vez: se refugiou num psiquiatra e nos remédios de tarja preta. 

O lado Cau jornalista tentou se defender na mídia amiga. Deu entrevistas para ex-colegas do jornalismo e até escreveu para o jornal O Globo. Mas era só seu “jus sperneandi”, como os advogados dizem daqueles que esperneiam até morrer. 

O fogo da mídia foi incessante e ele sabia que jamais reverteria o estrago. 

Na quarta-feira da última semana de sua vida, ele almoçou com dois de seus melhores amigos, Wedekin e o médico Ricardo Baratieri. 

Os amigos perceberam que ele oscilava entre a confiança em reverter as acusações de que fizera ouvidos moucos às denúncias de corrupção, e o mais completo desânimo.

Na quinta, teve uma pequena vitória na Justiça. Obteve o direito de entrar na UFSC por três horas, para participar de trabalhos com estudantes – nada pior do que sentir o gostinho e ter que sair escorraçado.

Na sexta ainda foi ao advogado pagar a primeira de quatro prestações de sua defesa. 

No mesmo recebeu ligação de um fotógrafo, amigo dos tempos do jornalismo. Queixou-se: “Nunca senti tanta dor na vida”. O amigo conta que chorou ao ouvir o tom de voz do reitor.  

Para outro amigo, queixava-se da vergonha que sentia. Da humilhação de “ser inocente” e o dramático “não poder provar”.

SANDÁLIAS DA HUMILDADE

Reclamou das delações, mas não falou em revanche. 

Lembrou que ele mesmo tinha votado no corregedor para aquele cargo. Pedia pro pessoal esquecer e aguardar sua defesa.

Estóico, recusava-se a criticar os colegas que o imolaram, ficando no limite de negar as acusações, dando uma lição de humildade. 

Para um professor de engenharia que foi ao enterro ele dissera que “doeu” e que “não adiantava lutar”.

O certo é que Cau ia ficar sangrando em praça pública enquanto a PF cozinhasse a orcrim em banho maria – lembremos que a última grande operação federal em Floripa, um baita crime ambiental, levou mais de 10 anos pra dar em pizza. 

Qualquer um desanimaria, né?

Seu último gesto parece ter sido decisão só dele, a ninguém comunicada.

Na segunda, sozinho, caminhou até a praça pra esperar o shopping abrir. 

Uma vez com a decisão tomada, o fim foi rápido.

Cau pulou do piso Campeche, para entrar de vez na história de Floripa.