Temer comprou dois terrenos um dia após propina delatada pela JBS

Montagem com fotos de Lula Marques

Jornal GGN – Quando Joesley Batista, da JBS, entregou as gravações que implicavam políticos, um dia depois da data que diz que entregou o dinheiro a Temer ele comprou dois terrenos em um condomínio de luxo em Itu, no interior de São Paulo. Os terrenos somam 4.700  metros quadrados e fica no condomínio Terras de São José II, que tem 20 quadras de tênis, dois campos de futebol, academia de golfe, centro hípico e heliponto.

As informações, veiculadas pelo jornal El País, dão conta de que a aquisição seria só uma movimentação típica de um milionário, caso não chamasse a atenção pela coincidência de datas entre a aquisição e a delação que conta a entrega do dinheiro.

Segundo os delatores passaram à Lava Jato, R$ 2 milhões teriam sido entregues em pagamentos de propinas da Odebrecht e JBS entre o fim de agosto e começo de setembro de 2014. A JBS alega ter dado R$ 1 milhão no dia 2 de setembro de 2014, em espécie, ao coronel João Baptista Lima Filho, amigo de Temer e considerado seu mais antigo operador de propinas pela Lava Jato.

Segundo depoimentos e documentos dos delatores da JBS, esse montante fazia parte de um acerto de R$ 15 milhões destinados a Temer. O caso ainda é investigado.

No dia 3 de setembro de 2014, um dia após a entrega do dinheiro relatada pela JBS, a empresa criada e controlada por Temer, Tabapuã Investimentos e Participações, adquiriu em cartório o lote 11, da quadra 24, do condomínio em Itu, por R$ 334 mil. O lote tem 2.604 metros quadrados. A Tabapuã, de Temer, também concluiu a compra do lote 12, na mesma quadra, do mesmo condomínio, com 2.092 metros quadrados, por R$ 308 mil. Diferente da prática comum em escrituras, não foram discriminados nos registros como foram feitos os pagamentos.

O jornal procurou Temer, que se limitou a informar que os terrenos foram adquiridos com recursos próprios e declarados no Imposto de Renda. Ele nega ter recebido valores da JBS e da Odebrecht como propina e “acusa os delatores de inventar os depoimentos em troca de benesses legais”.

Segundo apurado, essas propriedades em condomínio de luxo em Itu são as últimas aquisições do vasto conjunto imobiliário de Temer. Ele tem 20 imóveis, alguns herdados. Michelzinho recebeu duas salas comerciais e a casa onde moram em São Paulo, sendo Temer o usufrutuário até os 30 anos do filho. O patrimônio, que não é pequeno, chamou a atenção dos investigadores depois que Lúcio Funaro, doleiro operador de propinas do PMDB, afirmou que Temer adquiriu imóveis para esconder origem ilícita de repasses de propinas. Funaro afirmou que Temer tinha um andar inteiro de um prédio comercial na Avenida Faria Lima, endereço mais caro de São Paulo.

O El País confirmou a denúncia de Funaro, apurando que Temer é dono de um andar inteiro no edifício Spazio Faria Lima, que rende cerca de R$ 1 milhão de aluguel por ano. Ele foi adquirido da incorporadora Yuny, empresa da família do advogado amigo de Temer, José Yunes, também considerado um operador de propinas para o presidente. A escritura não informa como foi feito o pagamento, e Temer diz que pagou com recursos próprios em 2003.

Mas não foi só na Faria Lima que ele comprou imóveis de Yunes. Foi do advogado que Temer adquiriu duas salas comerciais na Rua Tabapuã, no Itaim Bibi, em São Paulo, onde fica o escritório do presidente. Segundo a escritura, temer pagou a Yunes R$ 190 mil por cada sala, isso em 2000. E também pagou a Yunes R$ 830 mil, em 2011, por um outro imóvel, no Alto de Pinheiros, em São Paulo.

Yunes e Temer tem um longo tempo de relacionamento. A Lava Jato recebeu denúncia de um executivo da Odebrecht de que o amigo recebeu por Temer R$ 1 milhão, em espécie, do departamento de propinas entre o fim de agosto e o começo de setembro de 2014. Yunes disse ao Ministério Público que só recebeu um “pacote” a pedido do hoje ministro-chefe de Temer, Eliseu Padilha. Funaro confirmou a versão do executivo e disse que pegou este “pacote” no escritório de Yunes e que soube por Geddel Vieira Lima, aliado também, que o dinheiro veio da Odebrecht. O destino do pacote ainda é investigado.

De acordo com a delação de Funaro e pelo depoimento de Yunes, os investigadores constataram que ele operava como intermediário de recursos para Temer. Mas não era ocasional. Segundo procuração obtida pelo El País, Temer delegou a Yunes a movimentação e o controle de contas bancárias da Tabapuã Investimentos, por três anos, a partir de dezembro de 2013. Nas datas apontadas para compra dos terrenos em Itu e as entregas de dinheiro da JBS e Odebrecht, Yunes tinha plenos poderes para “celebrar quaisquer contratos, depositar e retirar dinheiro, endossar e assinar cheques, autorizar transferências eletrônicas e pagamentos, tomar saques e reconhecer saldos” de contas bancárias de Temer. Segundo Temer, Yunes tinha esse poder pois administrou as salas comerciais da Faria Lima.

Procuração autoriza Yunes a movimentar contas bancárias de empresa de Temer

Um dia propina delatada pela JBS, Temer concluiu compra de terreno. Presidente diz que compra foi com recursos próprios e nega ter recebido propina.