Ação contra filho de Lula: a deduragem e o abuso policial deitam raízes

Reprodução | Jair Quint/Agecom

A deduragem de colegas foi o que mais doeu ao ex-reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que se matou na semana passada depois de ter sofrido uma prisão abusiva e desmoralizante.

Agora a Polícia Civil de São Paulo aponta uma denúncia anônima como origem da ação de busca e apreensão realizada na casa do filho do ex-presidente Lula, Marcos Lula. A denúncia falava do uso de drogas no local mas nada foi encontrado. A cultura da delação, inoculada pela Operação Lava Jato, começou a entranhar-se no tecido social, e combinada com a hipertrofia do poder policial e judicial, serve à consolidação do Estado de Exceção.

Ao longo de seus três anos de existência, a Lava Jato premiou delatores e fez uso das delações para condenar sem provas complementares, passando a mensagem de que a Polícia Federal, o Ministério Público e setores do Judiciário estarão sempre abertos a punir com base nelas.

Daí para a vulgarização da deduragem contra os adversários foi um passo. Foram adversários internos do ex-reitor em disputas internas da Universidade que o denunciaram à corregedoria e à polícia por atos cometidos em gestão muito anterior à dele, levando à dor moral que para ele foi insuportável.

Se houve denúncia anônima contra Marcos Lula, certamente partiu de adversários do ex-presidente, na perseguição sem limites que está em curso contra ele, empenhada não apenas em inabilitá-lo eleitoralmente, mas em desmoralizar, espezinhar e desconstruir a confiança dele junto à maioria da população, como mostram as pesquisas.

Mas, mesmo que tenha havido uma denúncia anônima mal intencionada, a Polícia Civil de São Paulo continua devendo explicações. Pois como questionaram os deputados estaduais petistas, se houve denúncia contra uma moradia, por que razões a ação de busca e apreensão foi realizada em dois endereços, o anterior e o atual?

E assim vão germinando as sementes do fascismo e do Estado de Exceção, onde ninguém está seguro. Um desafeto ressentido pode fazer um estrago na vida de qualquer um de nós.

 

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Ao afastar delegado, Alckmin pode definir episódio relevante, por Luis Nassif

O afastamento do delegado Carlos Renato de Melo Ribeiro, de Paulínia, e abertura de procedimento investigativo para analisar as circunstâncias da invasão de residência de Marcos Claudio, filho de Lula, representa um ponto de inflexão na curva do autoritarismo pátrio.

Louve-se o governador Geraldo Alckmin pelo procedimento.

O grande problema do quadro atual foi o liberou geral, estimulando os atos arbitrários generalizados, com delegados, procuradores, juízes de direito exercitando um poder abusivo na caça aos “inimigos”.  

É uma praga da mesma natureza daquela preconizada por Pedro Aleixo, quando da assinatura do AI5. Qualquer porteiro de cadeia transformou-se em autoridade suprema contra o “inimigo”. Quanto mais apagado o delegado e o procurador, maior a ânsia por demonstrar poder.

Com a atual onda persecutória, os filhos do Ministro Luís Roberto Barroso espalharam-se por todos os cantos do país. Esse quadro foi agravado pelo posicionamento vergonhoso das associações de juízes e procuradores endossando os abusos de delegados da Polícia Federal e procuradores de Santa Catarina, que levaram ao suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. São instituições que não conseguem avançar além do corporativismo mais canhestro.

Como José Robalinho, presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) e Roberto Carvalho Veloso, presidente da Ajufe (Associação dos Juízes Federais) puderam endossar uma operação como aquela, que conduz como criminosos sete professores universitários, que jamais foram intimados a depor, que procede à revista humilhante, investigando até o ânus das pessoas detidas. É nítido o desejo de humilhar, o prazer sádico que acomete mentes doentias. É uma desmoralização para a ANPR e a AJUFE dirigentes que endossam essa tara, assim como a banalização da condução coercitiva.

Em Sâo Paulo, até agora, a caça a Lula fez com que uma procuradora interrompesse as obras do Museu do Trabalhador, incriminasse técnicos inocentes e deixasse o museu abandonado, demonstrando o prejuízo que o burocratismo do Ministério Público provoca no país.

Outro delegado invadiu uma escola do Movimento dos Sem Terra agredindo mulheres, idosos e crianças. Em ambos os casos, sem que nada acontecesse, sem que ninguém os responsabilizasse.

Com a decisão de Alckmin, cria-se uma tentativa de disciplinamento, ainda que pequeno, a essa exteriorização do autoritarismo mais doentio.

A partir de agora, parte dos pequenos tiranos pensará duas vezes antes de perpetrar o próximo abuso. E o alerta virá pela parte mais vulnerável, o cérebro inferior. Tudo dependerá do desfecho do episódio, se com punição exemplar, fazendo valer a autoridade de Alckmin, se tergiversando e alimentando a serpente da indisciplina.

Comentários

Chega do estado de exceção

Será que vamos ter uma reação à esse fascismo que impregnou o MPF, PF e Judiciário? Torço para que além das disputas políticas, esses homens tenham também consciência de suas responsabilidades enquanto dirigentes públicos. Nunca se sabe onde pode parar essas ondas fascistas em progressão. Mas a historia esta ai e é possivel mudar esse curso antes que seja tarde.

 

Quando da perseguição às

Quando da perseguição às “bruxas” em Salem, nos Estados Unidos, as acusações foram tomando vulto, com “revelações” cada vez mais sensacionais, e envolvendo pessoas cada vez mais poderosas. O equivalente, à época, das “delações premiadas” eram os “testemunhos espirituais”: aceitavam-se como testemunhos válidos declarações de que demônios sobrevoavam ou conversavam com os acusados.

E a coisa foi num crescendo até que alguém teve a ideia de acusar a esposa do governador do estado de bruxaria. Aí o governador mandou parar: proibiu os “testemunhos espirituais”, e a loucura refluiu rapidamente. Infelizmente várias pessoas já tinham sido executadas e esse mal não podia mais ser desfeito.

Em todo caso, parece haver alguma esperança de que, com a morte do reitor e com essa busca e apreensão contra o filho de Lula, a “esposa do governador” tenha sido atingida, e a histeria esteja com os dias contados. Infelizmente estamos a depender do governo Alkmin, que é tudo menos confiável. Mas a desautorização, e, melhor ainda, uma eventual punição do delegado (ir)responsável por mais essa fogueira inquisitorial pode talvez sinalizar aos caçadores de bruxas que o tempo deles está acabando, e que estripulias para impor a ordem por meio da desordem não serão mais aceitas.

De novo, a coisa está nas mãos de um governador de estado. Esperemos que Alkmin tenha algum apreço à sua própria biografia.