–  2 anos de desastre

Após tragédia, tentativas de suicídio têm salto de 67%

Entre atingidos, cresceu em 300% o número de depressão; trauma e preconceito são fatores

Mariana

Distrito de Bento Rodrigues foi completamente destruído pela lama da Samarco
PUBLICADO EM 05/11/17 – 03h00
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MARIANA. Aos 64 anos, José Caetano lamenta não poder desfrutar dos banhos nas cachoeiras de Bento Rodrigues. Antônio Augusto, 44, ainda chora a perda de suas orquídeas. A filha dele, Ana Carolina, 13, até outro dia mal saía de casa e tirou a primeira nota vermelha no colégio, triste pela saudade dos cachorros e pelo trauma de ter visto o tsunami de lama levar de uma só vez toda a vida de uma comunidade.

Com o rompimento da barragem da Samarco, há exatos dois anos, a vida de cerca de 1.200 atingidos mudou da noite para o dia. Obrigados a deixar o local de moradia, foram recebidos na área urbana com o estigma de “povo da lama”, relação que ficou ainda mais conturbada com o aumento do desemprego em Mariana, na região Central, de 5% para 23%, após o fechamento da mineradora.

A imputação de culpa sobre as vítimas e as agruras da nova vida fizeram aumentar o consumo de álcool e medicamentos. Cerca de 10% dos atingidos sofrem com algum grau de depressão, segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Mariana. Antes da tragédia, não passava de 30 o número de moradores dos distritos atendidos pelas equipes de saúde mental. “Houve um adoecimento da população, que teve seu modo de vida alterado”, diz o coordenador da Rede de Atenção Psicossocial de Mariana, Sérgio Rossi.

Depressão. Adoecimento que atingiu também quem já vivia em Mariana e viu de perto o desastre e a economia afundarem. Números do Estado mostram aumento de 67% nas tentativas de suicídio na cidade após a tragédia. Em 2015, foram 88; no ano seguinte,147; e, neste ano, até 25 de outubro, 91.

“Grande parte possivelmente tem ligação (com o desastre)”, afirma o subsecretário de Estado de Vigilância e Proteção à Saúde, Rodrigo Said, que atenta para a maior sensibilidade das equipes de saúde no registro dos casos, o que também pode ter contribuído para o aumento de notificações. A Prefeitura de Mariana diz que não há registro de suicídio e tentativa entre os atingidos, mas reconhece casos graves em que eles se cortaram.

Antônio Augusto não conseguiu se acostumar com o apartamento de 60 m². “A vontade era de ficar chorando, chorando, chorando… Qualquer coisinha era motivo”, diz com a caixa de antidepressivo em mãos.

As aulas de violão trouxeram um pouco da paz que José Caetano precisava. “O que mais fazia era chorar, por tudo o que perdi e vi meus amigos passarem. Agora, é menos frequente, mas, quando relembro, a crise de choro vem”.

A Fundação Renova afirma que vai avaliar os dados e ver “se precisa fazer mais do que tem sido feito”. “Essas pessoas tiveram o rompimento de alguns vínculos sociais, e o reassentamento deve trazer esperança”, diz Albanita Lima, do programa de Saúde e Proteção Social. A previsão de entrega do novo Bento é março de 2019.

FOTO: Lincon Zarbietti
Zezinho do Café
“É ruim ficar preso. Aqui a gente entra e fecha a porta. Em Bento, ela ficava aberta esperando vizinho.” José das Graças Caetano (Zezinho do Café)

Pesquisa. Pesquisadores da Medicina da UFMG farão um estudo sobre a saúde mental dos atingidos. “Os danos materiais e ambientais foram quantificados mas o dano moral e psíquico ainda não foi mensurado”, afirmou o coordenador da pesquisa, Frederico Garcia.

*O jornalista viajou a convite da Fundação Renova

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Sem raízes

Do banho no rio, restou aos índios a caixa-d’água

Com a invasão da lama da Samarco, a cultura indígena foi duramente afetada

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rio doce

A lama de rejeitos que caiu no rio percorre o seu leito, de Mariana até a sua foz no Espírito Santo
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PUBLICADO EM 05/11/17 – 03h00
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“Watu morreu!”. A frase, por diversas vezes repetida pelos indígenas da aldeia Krenak, nas redondezas de Resplendor, no Rio Doce, reflete a situação do rio após a tragédia que assolou a bacia hidrográfica de Mariana a Regência (ES), onde a foz deságua no mar. Com a invasão da lama da Samarco, a cultura indígena foi duramente afetada. “Desde bebezinho, já se aprendia a nadar no rio”, recorda Shirley Krenak. Mas, com os impactos da tragédia, diz ela, “agora, eles tomam banho numa caixa-d’água de mil litros”.

Assim como os moradores das comunidades rurais afetadas, ela conta que muitos índios tornaram-se dependentes de remédios para tratar casos mais graves de depressão e mesmo para ajudar a dormir. “Até eu ando tomando medicação para dormir, mas, graças a nossa espiritualidade, essas coisas não nos afetam por completo”, diz.

A relação estreita da tribo com o rio faz com que o impacto seja ainda mais grave. Além do ensinar a nadar no Watu (rio Doce), os rituais de limpeza corporal, as aulas práticas para se fazer panela de barro e tantas outras atividades têm relação direta com as águas, o que obriga a aldeia a repensar suas práticas culturais históricas.

“Todos serão educados para não esquecer o que a Vale fez no rio. Enquanto eles tiverem sangue correndo nas veias, vão lutar”, brada Shirley Krenak, que, antes do desastre causado pelo rompimento da barragem da Samarco, travava duelo com a Vale, uma das controladoras da empresa, por causa da construção de uma linha férrea em terreno indígena.

*O jornalista viajou a convite da Fundação Renova

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A batalha por indenizações

Justiça monta estrutura em Valadares para buscar conciliação; empresa oferece R$ 1.000 para quem ficou dias sem água; 54 mil pessoas lutam por mais

PUBLICADO EM 05/11/17 – 03h00
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GOVERNADOR VALARES E REGÊNCIA (ES). Dois anos depois de 39,2 milhões de metros cúbicos terem vazado da barragem da Samarco, em Mariana, na região Central de Minas, e parte do volume ter percorrido 663,2 km até a foz do rio Doce, no Espírito Santo, apenas pouco mais de um terço das cerca de 450 mil pessoas que ficaram sem água em decorrência do desastre já receberam indenização pelos danos morais causados pela tragédia. Por causa do rejeito derramado no leito do rio e da presença de metais pesados na água, nove cidades ficaram impedidas de captar água na bacia do rio Doce, entre as quais estão Governador Valadares, no Rio Doce, e Colatina, no Espírito Santo.

Como boa parte dos atingidos não concorda com o valor definido pela Fundação Renova (entidade mantida pela Samarco e suas controladoras Vale e BHP Billiton para reparar danos da tragédia), um juizado especial foi montado em Valadares para as audiências de conciliação. Ao todo, 54 mil processos estão em andamento. Outras 90 mil pessoas negociam com a Renova.

Na abertura das audiências, os representantes das empresas oferecem o mesmo valor pago àqueles que fecharam acordo com a Renova – R$ 1.000 por pessoa e um valor extra de 10% pago a crianças, idosos, grávidas e pessoas com deficiência. E já sabem que terão a oferta recusada. “Isso é até uma ofensa. Pelo que a Samarco fez, é um roubo”, diz o aposentado Jorge de Oliveira, morador de Valadares, que tenta indenização cinco vezes maior.

Ele diz ter ficado sem água por dez dias, mas até hoje convive com a dúvida sobre a qualidade dela. “Não bebo água do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto). Prefiro buscar longe”, diz.

A estimativa é que R$ 480 milhões sejam destinados ao pagamento dessas indenizações. Gabriel Rossoni, líder do Programa de Indenização Mediada da Renova, explica que não havia parâmetro para se calcular o valor a ser pago. Dessa forma, arbitrariamente, ficou estabelecido o valor de R$ 1.000. Em média, diz, uma família receberá R$ 5.300.

Trabalho. Além da indenização pela água, as empresas negociam com pescadores, areeiros, agricultores e hoteleiros – 25 mil trabalhadores devem ser indenizados por terem sido impedidos de exercer suas atividades.

Presidente da Associação de Pescadores de Regência, Leônidas Carlos, 70, tirava o sustento da pesca havia 50 anos, mas, com o desastre, está parado há dois anos. “Tudo o que eu tenho hoje foi tirado de rio e mar. É o mesmo que cortar os meus pés e braços”, se queixa. “Corre água no olho da gente”, diz. (PRF)

FOTO: Lincon Zarbietti
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Previsão é que em novembro juizado alcance pico de 400 audiências por dia

Justiça vai bater martelo sobre novas vítimas

MARIANA. Dois anos após o rompimento da barragem, famílias que se dizem atingidas pela tragédia ainda lutam na Justiça para serem reconhecidas como vítimas e detentoras de direitos, como o auxílio emergencial para alimentação. No dia 5 de outubro, 23 pessoas que tinham sido recusadas pela Samarco ou pela Fundação Renova foram declaradas atingidas em audiência de conciliação no Fórum de Mariana.

Outras seis foram recusadas e caberá a um juiz decidir o futuro delas. “Não tem justificativa para a recusa, é uma forma de atordoar as vítimas”, disse o promotor Guilherme Meneghin. Cerca de 170 famílias conseguiram reconhecimento pela Justiça.

A Samarco alega que amparou todas as vítimas diretamente impactadas, mas que algumas tiveram que apresentar evidências em audiência, em comum acordo com o Ministério Público. A Renova diz que muitos casos nunca chegaram à fundação, foram encaminhados diretamente ao MP. (LC)

Minientrevista

Guilherme Meneghin – Promotor de Justiça

Qual balanço o senhor faz desses dois anos da tragédia?

Dois anos depois do crime provocado pela Samarco, a avaliação é muito negativa. A todo momento a empresa rejeitou e dificultou os processos de reparação às vítimas. O Ministério Público teve que ajuizar diversas ações e expedir inúmeros ofícios para pedir coisas que eram até pequenas para a empresa, mas significavam muito para as vítimas.

Quais são as principais dificuldades?

Primeiro veio a manobra da Samarco, que contestou a competência da comarca de Mariana. O processo foi para a Justiça Federal em fevereiro de 2016, e aí veio o momento mais covarde. A empresa passou a recusar todo mundo que a procurava para cobrar direitos. As pessoas não tinham como pedir ajuda, a Justiça Federal não tem sede em Mariana. Entramos com inquérito cível e conseguimos, em agosto de 2016, que o processo voltasse para cá.

E todos os atingidos já foram reconhecidos?

Em 2017, mais famílias foram recusadas e tivemos que intervir. Estamos falando de 160 a 170 famílias que só foram reconhecidas por meio judicial ou ofício do MP. Temos casos de famílias que ficaram dois anos sem receber auxílio, o que não tem justificativa alguma e coloca em risco essas pessoas.

Quanto ao reassentamento, como está?

Liberamos dinheiro para a compra do terreno, mas eles fizeram o projeto do novo Bento todo errado, colocaram a construção em área proibida, de alta declividade. Agora, vão ter que reformular. A principal providência é o reassentamento. É importante que se cumpra logo.

Novas providências estão sendo tomadas?

Como a empresa não cumpriu o cadastramento e a reparação às vítimas até agora, pedimos nova antecipação de indenização para que as famílias tenham um fim de ano mais confortável. E, em virtude das injustificáveis medidas e dos erros no reassentamento, o MP prepara medida judicial para que a empresa pague multa de R$ 20 milhões por dia de atraso em caso de não cumprimento até 29 de março de 2019. (LC)

*O jornalista viajou a convite da Fundação Renova