Reforma trabalhista deve afetar contratações de fim de ano

Para professor da Escola Dieese, nova legislação deve reduzir não só remuneração mas também a perspectiva de contratação permanente
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por Redação RBA publicado 12/11/2017 20h29
Arquivo/ABr
Contratação de fim de ano

Trabalho intermitente, com pagamento por hora, deve ser a tônica nas contratações de fim de ano

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São Paulo – A “reforma trabalhista”, personificada na Lei 13.467, em vigor desde sábado (11), deve ter efeitos múltiplos para o trabalhador. À primeira vista, nenhum positivo, de acordo com o professor da Escola Dieese de Ciências do Trabalho Fausto Augusto Júnior

“É uma reforma muito abrangente, mexe em mais de 100 artigos. Vai limitar o acesso do trabalhador à Justiça do Trabalho, possibilitar contratações diferenciadas como, por exemplo, com pagamento por hora, passando por todo sistema de relações do trabalho”, avalia, em entrevista à jornalista Talita Galli, do Seu Jornal, da TVT.

E as consequências das alterações da legislação devem ser sentidas agora, quando se iniciarem as contratações de final de ano, típicas do comércio. “O que de imediato vamos assistir é o trabalho intermitente, que já está nas redes de lojas, que estão contratando assim, com a contratação por hora”, afirma.

“Aquele trabalhador que estava habituado no final do ano a ser contratado por uma loja e esperava ser contratado de novo ou se tornar permanente, vai sentir de imediato a reforma”, aponta. “Provavelmente vamos ver pessoas trabalhando em período muito curtos, ganhando muito pouco, muito abaixo do salário mínimo.”

Para Fausto Augusto Júnior, a argumentação de que a reforma poderia criar empregos é falaciosa. “O que cria emprego é crescimento econômico, é investimento, a gente sabe disso. Agora, o que vamos assistir é que em alguns casos vai haver uma regulamentação da precariedade que existia antes. Não vai aumentar o número de postos de trabalho, mas, de repente, nos números oficiais, pode aparecer como se tivesse aumentado”, pondera. “Provavelmente nem isso vai acontecer porque as empresas que hoje operam na precariedade fazem isso para economizar e vão continuar fazendo, por exemplo, com a não assinatura da carteira.”

Para o professor da Escola Dieese, podemos ter novamente uma guerra dos números, como havia durante a ditadura, para saber a situação real do emprego no país. “Isso já aconteceu, a Inglaterra rebaixou os números de desemprego com a chamada jornada zero. O sujeito tinha um contrato assinado, quando não trabalhava, não ganhava, mas não era considerado desempregado.”

“Mas o que vamos assistir, e isso sim é grave, é um conjunto de trabalhadores que tinha uma forma de trabalho que vai ser substituída por outras modalidades. E a terceirização vai pegar muito forte”, analisa.

Confira a íntegra da entrevista abaixo:

 

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Classe média brasileira voltará ao patamar de 2014 só em 6 anos

Postado em 12 de novembro de 2017 às 7:23 pm

Da Exame:

Quando morava com os pais, até meados de 2015, Jennifer de Souza, de 22 anos, trabalhava porque queria ajudar a complementar a renda da família, de classe média, que fechava todo mês em torno de R$ 3 mil.

De Mauá, região metropolitana de São Paulo, a jovem aproveitou as vagas que surgiram com o boom do setor de serviços e comércio. Até que veio a crise.

De dois anos para cá, foram alguns bicos, nada formal. Hoje, Jennifer vive das contribuições que consegue nas ruas paulistanas, onde, junto do marido, também pede dinheiro para ajudar famílias carentes de sua comunidade. “Isso é tudo de antes, quando a gente tinha dinheiro. Hoje não compro nada”, diz ela, apontando para os acessórios de prata que usa nas mãos e pescoço.

Na casa dos pais, o momento também é outro. O pai perdeu o emprego de motorista e só a mãe trabalha, com uma pequena banca de açaí em Mauá.

A linha do tempo de Jennifer é um retrato da economia brasileira. Em 2015 e 2016 as classes D e E engordaram em mais de 4 milhões de famílias. Só daqui a seis anos, em 2023, a classe média terá recuperado o patamar de participação que alcançou em 2014, quando 28% dos lares brasileiros tinham renda mensal de R$ 2.302 a R$ 5.552.

As projeções, realizadas pela Tendências Consultoria Integrada, fazem parte de estudo que analisa a evolução de famílias e renda entre as classes no Brasil até 2026, a partir de dados do IBGE.

Para Adriano Pitoli, um dos economistas responsáveis, o quadro se deve ao fim do crescimento econômico puxado por consumo e pelo setor de serviços. “Este avanço, que empregava principalmente mão de obra pouco qualificada, não tem mais espaço. No médio prazo, provavelmente haverá uma dinâmica mais concentradora de renda”.

A previsão é que a classe A recupere os rendimentos mais rapidamente nestes primeiros anos. Enquanto a renda total da classe C vai crescer a uma média anual de 2,3% até 2026, a velocidade entre os mais ricos será de 4,1%, e de 3% para os rendimentos totais. Entre 2003 e 2014, a renda da classe média crescia cerca de 6% ao ano.