Contra os retrocessos, arcebispo de Brasília reúne-se com Movimentos Sociais

         Embora pareça, o Brasil não é um país adormecido diante do avanço dos retrocessos da era Temer. A Igreja Católica, que teve papel tão relevante na luta pela democracia, está buscando um maior alinhamento com os movimentos sociais na luta contra a espoliação dos direitos e o aprofundamento das desigualdades e injustiças sociais.

Na manhã deste domingo, o arcebispo de Brasília e presidente da CNBB,  cardeal dom Sergio da Rocha, reuniu-se na sede da Cúria Metropolitana com líderes e representantes de diversos movimentos sociais no “Encontro de Diálogo”, primeiro de uma série de eventos em busca de maior sinergia entre a Igreja e os que lutam pelos “três Ts”: Terra, Teto e Trabalho.

Trata-se da implementação de uma recomendação expressa do Papa Francisco, que ao participar do Encontro Mundial de Movimentos Populares, em 2015, declarou:  “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que provém do trabalho.”  Francisco foi muitas vezes enaltecido ao longo do encontro em que o arcebispo e seu auxiliar, dom Leonardo Steiner,  ouviram relatos dos líderes de movimentos que atuam no Distrito Federal.

         Participaram do encontro o MTST, o MST, o MOPOCEM (Movimento Popular por uma Ceilândia Melhor), o Passe Livre, a Marcha Mundial de Mulheres, a Contag, a CUT e diversos sindicatos. Ao todo, 22 entidade relacionadas com a luta por terra, habitação e trabalho no Distrito Federal.  Numa sequência de apresentações, eles falaram sobre os dramas vividos por populações que enfrentam a grilagem de terras, a criminalização dos movimentos sociais, a perda e a violação de direitos trabalhistas (acentuada a partir da vigência da reforma trabalhista de Temer, que mereceu naturalmente uns gritos de “fora”), a degradação ambiental,  a perseguição à população de ruas, o assédio e a violência contra as mulheres pobres e trabalhadoras, enfim,  falaram das mazelas que acontecem  na capital federal, sob os olhos indiferentes e cúmplices dos que governam o país.

         São impressionantes os números apresentados pelos representantes do MST sobre a redução das verbas federais, no orçamento de 2018,  para programas relacionados com reforma agrária e desenvolvimento social no campo.  Os recursos do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos, pelo qual o governo compra produtos da agricultura familiar) cairão de R$ 318 milhões para R$ 750 mil. Os do Pronera (criado por Lula, voltado para a educação no campo) cairão de R$ 32 milhões para R$ 3 milhões.  No Bolsa-Família, o já noticiado corte nacional de R$ 3 milhões (de R$ 29 milhões para R$ 26 milhões). O Programa Nacional de Cisternas, que recebeu R$ 250 milhões este ano, terá apenas R$ 20 milhões em 2018.  O ATES (Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária/Incra) terá suas verbas reduzidas de R$ R$ 85 milhões para R$ 12 milhões. Os recursos para reconhecimento de terras de quilombolas serão reduzidos de R$ 4 milhões para R$ 1 milhão. E para desapropriações, com vistas à reforma agrária, a redução será profunda, de R$ 257 milhões para R$ 34 milhões.

         Os movimentos populares urbanos relataram a vida e seus problemas na periferia da capital, onde a grilagem de terras e o favorecimento às grandes imobiliárias impedem a execução de uma política habitacional popular, o transporte é precário e a polícia, além de não garantir a segurança, atua com violência contra os ativistas sociais. Quando conseguem alguma coisa, ela vem pela metade.

Durante anos a Ceilândia lutou por um campus local da UnB. Ele foi implantado mas a universidade não funciona à noite, para atender aos que trabalham durante o dia.  Lutaram para obter um terreno para a construção de um segundo hospital local. Conquistaram o terreno mas o hospital nunca saiu do papel. Ao longo de toda a manha a cúpula da Igreja ouviu relatos comoventes de homens e mulheres que, longe dos olhos da mídia e das autoridades, lutam contra a degradação da vida.

         No final, D. Sergio reiterou a disposição de dar consequência ao encontro, orientando as instâncias da Igreja a atuarem em conjunto com os movimentos populares. Pediu também que eles se reportem com mais frequência à Igreja, que pode também, como ele tem feito, atuar como mediadora junto ao poder público em alguns casos.

         – Escutei, anotei tudo no papel e no coração.  E tudo isso será passado para o coração da Igreja. Sem dívida terminamos este encontro querendo continuar – disse o arcebispo encerrando o encontro que não teve cobertura da mídia.  Lá estiveram apenas esta repórter do 147 e Beto Almeida, da TV Comunitária de Brasília e do Brasil Popular.

         A Igreja, nós sabemos, tem suas ilhas e correntes, inclusive a mais conservadoras. Mas D. Sergio é também presidente da CNBB e as posições que vem adotando, a exemplo deste encontro,  devem levar a Igreja a um alinhamento mais firme com a resistência ao avanço do atraso.