Moralismo sem moral. O incômodo papel de defender Lula e o PT, por Armando Coelho Neto

Moralismo sem moral. O incômodo papel de defender Lula e o PT

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Não se trata de uma partida de futebol. Nela, com visão apaixonada por um determinado time, é quase impossível ver a falta que o juiz viu contra o time pelo qual se torce. Conforme o resultado, o árbitro da partida pode ser visto até como o décimo segundo jogador, um larápio comprado. No mundo dos esportes as paixões cegam, palavrões se multiplicam. Predominam argumentos irracionais que por vezes resvalam agressões e morte. As torcidas organizadas falam por si.

Tem gente que não quer discutir política, pois é como religião, futebol e gosto. “Isso não se discute”. Por ser tema intocável, quando o alienado se propõe a debater o faz com frases feitas e manipuladas, produzidas pelos meios de comunicação controlados pela elite gananciosa e entreguista.

Veio o golpe. … Para se consolidar, era preciso cassar palavras, destruir imagens públicas, criar a narrativa do combate à corrupção, que por pouco não deu certo com Mensalão, logo substituído pela hoje agonizante Farsa Jato (cada vez mais farsa). … O programa aprovado nas urnas foi decapitado e o que está em curso é a destruição de um projeto de pais carente de inclusão social que mal começou e já se esvai. Mais que isso, detonando avanços sociais recentes, retrocedendo em cinqüenta anos e reflexos na Lei Áurea.

Como fruto de aniquilação cerebral promovido por Globo e seu rancho, sequer reações se esboçam até sobre questões acima de direita/esquerda, como nacionalismo e dignidade humana. O resgate de valores morais, o pretenso combate à corrupção e a destruição da classe política se tornaram pontos essenciais.

Com a cumplicidade da decadente Suprema Corte (e das Forças Armadas de tradições entreguistas) o golpe se consolidou. Joaquim Barbosa, Sérgio Moro e “o japonês da Federal” assumiram o posto de ídolos, viraram máscaras no Carnaval do Rio de Janeiro e bonecos gigantes no de Olinda. Abençoados pela narrativa moralista, todas as vozes que se levantaram contra passaram a ser tratados como corruptos.

Desse modo, eu, que não guardo um centavo roubado, que dediquei parte de minha vida funcional ao aprimoramento do pessoal e da atividade fim da Polícia Federal, passei a ser tratado como marginal. Junto comigo, outros com igual postura.

Eis-me, pois, diante do desafio de não sendo filiado ao Partido dos Trabalhadores, ter que defender uma sigla enlameada, fruto da soma de um trabalho porco realizado por Globo/Veja “et caterva”. Na condição de defensor de corruptos acusados e sentenciados por corruptos.

Com o perdão da licença poética, parto do princípio de que corrupção não é só dinheiro. Soa razoável que a corrupção vista única e exclusivamente sob a perspectiva do dinheiro é um conceito capital, mercantilista, no qual o dinheiro tem mais valor que a vida. … Coleciono larápios com discursos prontos em nome da honra, da família, da moralidade, da eficiência, bem público, contra o comunismo, do neto, do cachorro, de torturador já se revelaram canalhas.

Diante do nefasto estigma criado contra o Partido dos Trabalhadores, eis-me, pois, no incômodo papel de advogado do diabo. Defendendo o PT sem ser do partido e solidário com o melhor presidente da história desse País. Ao levar esses questionamentos a um seleto grupo de delegados da Polícia Federal, surgiu uma inspiradora nota, que não me atrevi a editar.

Se por “moralidade” se entende uma situação em que uma governante honesta é impedida de terminar o mandato para não governar para pobres. Se por moralidade se entende que os usurpadores possam rasgar os direitos sociais… Se por moralidade os cidadãos aceitam que magistrados que legitimaram o golpe podem usufruir inconcebíveis privilégios enquanto o salário mínimo é reduzido… Se por moralidade se entende que a vontade eleitoral da maioria do povo brasileiro possa ser interditada por julgamentos casuísticos e julgadores parciais… Que importa que digam que estejamos defendendo corruptos?

Se por moralidade se entende que os recursos do País sejam drenados para os mais ricos através de renúncia fiscal e retrocessos trabalhistas, enquanto se reduzem os investimentos em saúde, educação, saneamento básico, infra-estrutura…  Se por moralidade se entende que as maiores  empresas nacionais sejam impedidas de disputar mercados em prol de concorrentes estrangeiras e que nossas riquezas sejam entregues a preços vis à livre exploração por outras nações…

Se por moralidade se entende que seja correto aniquilar o nosso futuro e o de nossa descendência para que velhos corruptos tenham boas comissões em negociatas atuais… Se isso é moralidade… Nós reivindicamos o direito sagrado à imoralidade.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e foi representante da Interpol em São Paulo