White Friday, dê um golpe de estado e ganhe bolsominions explosivos de brinde, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem fui ao Shopping União em Osasco SP. Algumas lojas estavam lotadas, mas a maioria delas estava às moscas.

As vendas da sexta-feira de descontos não foram grande coisa para a maioria dos comerciantes. Em razão da crise econômica provocada pelo golpe de 2016 – crise que está sendo deliberadamente aprofundada em virtude do usurpador adotar um programa neoliberal – a capacidade de consumo das pessoas caiu.

No natal de 2017 e no ano que vem o comércio começará a sentir os efeitos deletérios da reforma trabalhista. Além de não afetar de maneira positiva o mercado de trabalho – a taxa de emprego continua caindo de maneira consistente por causa da desnacionalização do petróleo e da produção industrial ligada à indústria petrolífera, da alta dos juros bancários,  da redução de investimentos estatais em infraestrutura e dos aumentos nos preços dos combustíveis – a reforma trabalhista provocará redução de salários e, portanto, do consumo.

O consumismo, fenômeno festejado pelos entusiastas dos governos petistas, deixou de ser um indicador de bem estar social. A educação também. As universidades públicas serão privatizadas. O número de pessoas em condição pagar seus estudos, porém, não vai aumentar. Ele provavelmente vai diminuir e isto irá se refletir de maneira negativa num futuro próximo. Não há desenvolvimento econômico sem mão de obra especializada, pesquisa e inovação tecnológica.

Com Luciano Huck e Doria Jr. fora da disputa presidencial, as possibilidades eleitorais de Jair Bolsonaro aumentaram. Sem condições intelectuais de conceber um programa de governo, Bolsonaro apelou para uma astróloga. Ninguém precisa ser especialista em astrologia ou astronomia para perceber que a economia brasileira está sendo sugada para um buraco negro financeiro do qual a indústria e o comércio não irão escapar.

O fenômeno, porém, não é apenas econômico. Ele é antes de tudo cultural.

“A tendência da cultura é manter-se a si própria, reinventando-se.” (A Invenção da Cultura, Roy Wagner, Cosacnaify, São Paulo, 2014, p. 157)

Nos últimos anos a imprensa brasileira criou e assoprou a bolha de conservadorismo e anticomunismo que resultou na queda de Dilma Rousseff. Como os governos petistas estavam mais inclinados a incentivar o consumismo (de mercadorias e educação pública) do que o comunismo, o resultado desta reinvenção da “cultura brasileira” foi a restauração de uma característica marcante do Brasil colônia. Refiro-me obviamente  ao desprezo pelos mais pobres, que segundo Jessé Souza foi e ainda é a causa eficiente do nosso atraso econômico em relação aos países que rapidamente atenuaram as distâncias sociais e os efeitos negativos da produção baseada no trabalho escravo.

É óbvio que os articuladores financeiros e apoiadores do golpe queriam obter a maior felicidade no melhor dos mundos. O resultado do golpe, contudo, já produziu uma divisão entre eles. Enquanto os primeiros lucram com os juros altos pagos por um Estado que está se tornando mais e mais endividado, todos os demais são obrigados a pagar a gasolina muito mais caro do que pagavam antes do golpe de 2016.

Dilma Rousseff foi ferozmente atacada porque o litro da gasolina custava R$ 2,69. Os apoiadores do golpe de 2016 já estão pagando  R$ 4,49 por litro de gasolina. O aumento de 66,91% em pouco mais de um ano não reflete uma crise internacional do petróleo. De fato o preço da gasolina parece ter sido inflacionado para cobrir o rombo deixado pelo perdão tributário concedido pelo usurpador aos banqueiros e produtores rurais.

“A arte, como fantasia, é o desenvolvimento de imagens ao longo de linhas de máxima satisfação possível.” (Marcuse – vida e obra, Francisco Doria, José Álvaro editor, Rio de Janeiro, 1983, p. 196)

Os jornais, revistas e telejornais criaram a fantasia de que o golpe iria proporcionar máxima satisfação possível ao maior número de pessoas. “É só tirar a Dilma Rousseff que a economia vai melhorar”, dizia-se. A economia não melhorou. De fato ela continua piorando e tudo indica que irá piorar ainda mais, pois enquanto o governo Michel Temer perdurar, o conflito de distribuição de riqueza continuará a ser arbitrado pelo Banco Central em benefício dos bancos e em detrimento de todos os demais.

A realidade desfez a fantasia do golpe. Na vida política brasileira golpear a democracia é uma arte que só cria ilusões temporárias. A máxima satisfação possível foi e seguirá sendo atribuída aos banqueiros. Todos os demais (consumidores de gasolina, comerciantes e industriais que apoiaram o golpe) continuarão perdendo. De fato, eles começaram a perder justamente quando se tornaram incapazes de perceber as linhas que dividem os verdadeiros capitalistas dos que são meros consumidores da ideologia produzida e distribuída pelo capitalismo.

Nesse sentido, a eleição de Bolsonaro pode ser uma bênção para o Brasil. As expectativas irracionais que ele alimenta terão que ser imediatamente frustradas. A esquerda tenta associar Bolsonaro a Hitler, mas a mim ele está ficando cada vez mais parecido com Jânio Quadros, aquele que chegou ao ponto mais alto para inevitavelmente cair de maneira catastrófica.

O vácuo de poder deixado pela queda de Jânio Quadros abriu caminho para a Ditadura Militar. A ascensão e queda de Jair Bolsonaro pode criar as condições de possibilidade de uma verdadeira revolução no Brasil. Antes disso porém, os banqueiros e capitalistas irão ter que amargar os prejuízos que os bolsominions irão causar a economia deles. A economia consumista dos trabalhadores já foi inevitavelmente destruída e nem mesmo Lula será capaz de reorganizar o Brasil para recuperar a oportunidade de desenvolvimento perdida.