Após atacar Lula, Palocci tem delação travada pela Lava Jato. Em benefício de quem?

Ex-ministro havia prometido arrastar políticos com foro, nomes do mercado financeiro e empresas de comunicação para o olho do furacão. Mas Sergio Moro, os procuradores de Curitiba e a PGR demonstram desinteresse, restringindo as acusações de Palocci a Lula
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Jornal GGN – Para se ver livre da prisão e ter penas reduzidas, Antonio Palocci pretendia delatar Lula e uma série de políticos, na intenção de fechar um acordo de delação premiada com a Lava Jato. Mas, na prática, o acordo está travado e as acusações do ex-ministro ficaram restritas a Lula, sendo Palocci um delator informal nas ações penais movidas pelos procuradores de Curitiba – ou seja, não precisa provar nada do que disse.
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Na reportagem “Perdeu o bonde”, publicada pela revista Piauí nesta quinta (7), há a exposição de alguns motivos para que Palocci tenha tido sua delação travada. E há algumas dilemas, também:
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– Se Palocci não tem como provar o que diz, seu depoimento contra Lula, na condição de réu e delator informal, não perde valor?
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– Se a delação tem valor e for usada em novas condenações possivelmente impostas a Lula, por que a própria Lava Jato dificulta o acordo formal? Ou melhor: em benefício de quem?
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DELATOR SEM PROVAS
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Um dos motivos citados na matéria para a delação ter travado é curioso porque depõe contra a própria Lava Jato, e foi dito ao repórter por um membro da força-tarefa: Palocci, preso há um ano, dificilmente conseguiria produzir provas que corroborem o que diz que tem a entregar aos procuradores.
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Por esse ângulo, é mesmo interessante que a Lava Jato de Curitiba mantenha Palocci no time de Léo Pinheiro e Renato Duque: os delatores informais que decidiram disparar contra Lula, na esperança de pelo menos caírem nas graças do juiz Sergio Moro no final do processo.
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Piauí colheu depoimento do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa de Curitiba, que endossa essa tese. Disse ele que, na capital paranaense, a Lava Jato já está na “maturidade” e o que Palocci tem a dizer sobre políticos é problema da Procuradoria Geral da República. Trocando em miúdos: que bata em outra porta, o ex-ministro.
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A DISTÂNCIA DE BRASÍLIA
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O problema levantado pela reportagem é que, com a substituição de Rodrigo Janot por Raque Dodge, o acesso dos advogados de Palocci aos procuradores da República em Brasília passou a ser pífio. Antes, as conversas eram mais assíduas, tinha até grupo no WhatsApp. Agora, é burocrática, sem interlocução: é preciso ligar na secretaria, seguir os trâmites formais, para agendar um horário na PGR.
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Um negociador de delações premiada disse à revista, em condição de anonimato: “Nos tempos do Janot, a PGR era um restaurante repleto de advogados propondo colaborações premiadas, com ‘garçons’ da PGR circulando de mesa em mesa, ouvindo os pedidos, cozinha a todo vapor. Agora, quase todos os assentos estão vazios, mas é difícil chamar a atenção de um atendente.”
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DESINTERESSE EM CURITIBA
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Ao final, a impressão que se tem a partir da leitura da reportagem é que alguém não quer que Palocci seja um delator formal. Não há interesse em ouvir o que o ex-ministro tem a falar sobre políticos com foro, nomes do mercado financeiro ou dos meios de comunicação.
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Seria uma novidade se o juiz Sergio Moro já não tivesse desprezado a delação de Palocci em um de seus despachos. Ao condenar Palocci a 8 anos de prisão, Moro escreveu que a oferta de delação feita pelo ex-ministro soava mais como uma “ameça” ou um pedido de socorro a algum poderoso do que uma “verdadeira” tentativa de colaborar com a Justiça.
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Desde então, os procuradores de Curitiba passaram a demonstrar desinteresse pelo que Palocci teria a dizer.