Pegaram o Haddad!, por Camilo Vannuchi

Foto Ricardo Stuckert

Pegaram o Haddad!, por Camilo Vannuchi

— Tava demorando.

— O quê?

— Pegaram o Haddad.

— Tá zoando!

— Sério. Pegaram o Haddad. Já era.

— Que papo é esse? O que você ouviu?

— Indiciado pela Polícia Federal por crime de falsidade ideológica. Esquema pra pagar dívida de campanha envolvendo uma empreiteira, tá bom pra você?

— Caraca, até o Haddad?

— Pois é. Fim da linha pro Malddad. A petralhada chora. Vai, malandra!

— Putz.

— É melhor JAIR pensando no plano C, porque o plano B também deu merda, querida. Quem mandou acreditar em petista? Cadê a saudade do teu ex agora? Ex é assim mesmo: só fode a gente.

— Péra aí, porra. Deixa eu tomar um gole d’água. Agora me conta. O que a Polícia descobriu?

— Falsidade ideológica, caralho. Ficou surda?

— Mas qual a prova? Tem recibo de transferência bancária?

— Não.

— Conta no exterior?

— Não.

— Uma sala cheia de malas repletas de dinheiro vivo?

— Não.

— Já sei: uma pasta cheia de papéis com a anotação “CX2” encontrada no apartamento do Haddad?

— Não, porra.

— Ué. Não tô entendendo.

— O dono da UTC foi quem falou. Abriu o bico. Deu a letra toda.

— Delação premiada?

— Claro. Viva a Lava Jato!

— Mas ele mostrou alguma coisa?

— Ele disse que o Vaccari, aquele salafrário, pediu dinheiro pra pagar a dívida da campanha. Dinheiro desviado, é óbvio. O meu, o seu, o nosso. Só não vê quem não quer.

— E tem áudio dessa conversa?

— Não.

— Vídeo gravado pelo sistema de segurança?

— Não.

— Vídeo de celular?

— Não.

— Puxa vida. Mas o Vaccari confirma a história, né?

— Também não. Tudo parça.

— No mínimo alguma assinatura do prefeito foi encontrada.

— Não.

— O nome dele? Ou o apelido, numa lista de propinas da UTC?

— Nada.

— Mas para a PF indiciar um ex-prefeito… Encontraram ao menos alguma obra superfaturada tocada pela UTC na gestão Haddad?

— Não. A única vez que a UTC venceu uma concorrência era para fazer um túnel na Avenida Roberto Marinho, mas a obra foi cancelada pela administração.

— Uai. Mas esse repasse da UTC entrou na conta do prefeito? Ou na conta da campanha? Vazaram cópia do extrato?

— Nada disso, chuchu. O esquema era forte. A UTC pagou uma gráfica.

— Uma gráfica?

— É. A gráfica imprimiu material de campanha pro Haddad e não recebeu. Aí pediram para a UTC honrar a dívida. Com dinheiro de propina, lógico.

— Vixe. E o dono da gráfica confirma?

— Não.

— Não? O esquema foi operado pelo diretor financeiro da gráfica?

— Não.

— Já sei, foi pelo gerente?

— Não, que mania…

— Péra. Você tá querendo me dizer que a PF indiciou um ex-prefeito com base na delação premiada de um empreiteiro que afirmou ter dado dinheiro para a campanha eleitoral do Haddad através de um pagamento feito a uma gráfica que fornecia serviços para o PT?

— Isso mesmo.

— E que o tesoureiro do PT nega, o dono da gráfica nega, o prefeito nega?

— Exatamente.

— E não tem assinatura, nem rubrica, nem áudio, nem vídeo, nem sala cheia de malas de dinheiro, nem conta no exterior, nem papelada com a anotação “cx 2”, nem extrato bancário, nem qualquer outra prova?

— Pra você ver. Os caras são ninja.

— Ninja???

— Coisa de profissional. Roubaram pra caralho e não deixaram nem uma pista sequer. Não é incrível?

— Com certeza. Essa Polícia Federal é realmente incrível.

 

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Relatório do indiciamento de Haddad revela omissão e manipulação de provas

15/01/2018 – 18:35 – Atualizado em 15/01/2018 – 20:27

Cíntia Alves

Polícia Federal abriu mão de fazer o que se espera da instituição: investigar a fundo. Em vez disso, arrastou Haddad para a denúncia à fórceps

Foto: Ricardo StuckertJornal GGN – A leitura das 32 páginas do relatório do indiciamento de Fernando Haddad pela Polícia Federal, divulgado nesta segunda (15), revela falta de investigação, omissão e manipulação de provas. Entre elas, uma tabela obtida após busca e apreensão na LWC, a gráfica acusada de receber caixa 2 da UTC após a vitória do ex-prefeito. Em vez de fazer a devida apuração sobre o documento, a PF preferiu criar uma hipótese criminosa para ele, que não condiz com a realidade dos fatos apurados pelo GGN.

A tabela abaixo, da LWC, mostra a prestação de um serviço em favor de Haddad em fevereiro de 2012, ou seja, antes da campanha ao Paço começar oficialmente.

No relatório, o delegado João Muniz Moraes Rosa escreveu que o pagamento pelo serviço “escapa à contabilidade oficial da campanha eleitoral, já que nada nesse sentido surge da busca realizada na ferramenta on-line disponibilizada pelo TSE [Tribunal Superior Eleitoral].”

Um delegado da PF afirmou, portanto, que um determinado trabalho foi pago por meio de caixa 2 só porque uma busca feita no site da Justiça Eleitoral não mostrou nenhum resultado. 

Não há nenhuma observação sobre o evento ser anterior à campanha – assim como outro serviço para Haddad ainda menos detalhado no relatório, que teria ocorrido em abril.

GGN levantou que a demanda de fevereiro não tinha nenhuma relação com a campanha de Haddad. Tratava-se de impressão de um jornal desenvolvido pelo PT para apresentar as realizações do ex-ministro da Educação à militância. Houve contrato assinado pelo diretório estadual do partido, pagamento por meio de depósito, com comprovante da transferência e nota fiscal. Uma delas tem valor aproximado de R$ 69 mil. No total, foram cerca de 1 milhão de exemplares.

Sem encontrar registros no TSE, a Polícia poderia ter tentando esclarecer as dúvidas sobre a tabela com o ex-prefeito ou algum representante da campanha. Não foi o caso.

Ao contrário: muito do que Haddad explicou no depoimento ao delegado Rosa foi omitido no relatório.

OMISSÃO

No dia do depoimento, Haddad falou e entregou documentos que comprovam que em 14 de fevereiro de 2013, quando ele assumiu o Paço, contratos de interesse da UTC junto à administração municipal foram suspensos, contrariando os interesses da empresa de Ricardo Pessoa, um dos principais delatores.

A informação é importante porque mostra que não teria porque a UTC aceitar pagar qualquer dívida relacionada à campanha de Haddad meses depois de ter sido prejudicada pela gestão do petista. Nenhuma linha sobre isso foi citada no relatório.

Ao contrário: o delegado Rosa escreveu que, do depoimento de Haddad, só extraiu “de relevante” a negativa do ex-prefeito sobre pagamento à LWC via caixa 2. Essa declaração, para ele, “não se coaduna com o farto conjunto probatório existente nos autos”.

MANIPULAÇÃO 

Além da tabela da LWC e da delação da UTC [veja mais abaixo], a PF usou contra Haddad um vídeo que está no Facebook, de 2016. Nele, o então candidato à reeleição, derrotado por João Dória, pedia apoio financeiro para terminar de pagar funcionários do staff.

O delegado Rosa transcreveu o que o petista disse para o relatório e afirmou que embora o vídeo não seja uma “prova cabal”, pode ser usado contra Haddad na medida em que indica que o petista tinha condições de conhecer a situação financeira de suas campanhas. “(…) Ora, se assim ocorreu em relação ao pleito de 2016, é intuitivo que também tenha ocorrido em relação à eleição de 2012″, teorizou.

A questão é que a tese “Haddad sabia” pode ter sido usada de maneira indevida pela PF, já que a legislação eleitoral obriga que todo candidato tenha conhecimento sobre as despesas de campanha.

O vídeo é, portanto, a janela que a PF encontrou para justificar o indiciamento do atual coordenador da campanha de Lula, quando nem mesmo os delatores envolveram Haddad pessoalmente no caso.

ARBITRARIEDADE

Em nota, a assessoria de Haddad apontou que o delegado do caso foi seletivo, pois supervalorizou delações ao mesmo tempo em que ignorou depoimentos e provas em favor do ex-prefeito.

Há cerca de 60 dias, a PF tentou obter a condução coercitiva de Haddad. O Ministério Público manifestou-se contra a medida e a Justiça acabou indeferindo o pedido.

Condução coercitiva sem que o investigado tenha sido convidado a depor antes, ou que tenha se recusado a colaborar, vem sendo criticada por diversos juristas. Gilmar Mendes chegou a conceder liminar impedindo a prática banalizada após a Lava Jato.

TÉCNICA EMPRESTADA DA LAVA JATO

Pela denuncia, João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, procurou Ricardo Pessoa, da UTC, para pedir R$ 3 milhões para quitar uma dívida da primeira campanha de Haddad. A empreiteira chorou um desconto e acertou em R$ 2,6 milhões o valor a ser repassado.

Outro delator, Alberto Youssef confirmou que foi acionado para ajudar a operacionalizar o pagamento, que se deu por meio das empresas de fachada do doleiro e do sistema de lavagem de dinheiro da UTC (que forjava contratos fictícios e superfaturados com empresas menores, e usava os recursos que voltavam em espécie ao grupo para pagar a propina).

Para atestar a veracidade das delações, a PF levou aos autos algumas provas. Entre elas, registros de ligações telefônicas e imagens de câmeras de segurança que mostram que o dono oculto da LWC, Francisco Carlos de Souza (um ex-deputado do PT, mais conhecido como Chicão), manteve contatos com empresários da UTC. Chicão é considerado dono oculto porque a LWC está em nome de sua ex-esposa e de seu irmão, Gilberto de Souza.

A estratégia é a mesma usada por autoridades da Lava Jato em Curitiba – incluindo o juiz Sergio Moro, em sentenças: primeiro, apresentam as provas que corroboram uma parte da delação e, depois, tomam ela por inteira como verdade absoluta. No caso de Haddad, como há provas de que Chicão recebeu dinheiro da UTC, a PF julga que o que os delatores dizem sobre o pagamento estar relacionado à campanha de 2012 também é verdadeiro.

Além das fragilidades acima, o contraditório existe na manifestação de Vaccari, que negou pedido à UTC para a campanha de Haddad, e no depoimento de Chicão, que admitiu à PF que recebeu os recursos da UTC, mas negou conexão com campanha de Haddad. Segundo ele, a dívida era do diretório estadual do PT. Mas o então presidente do diretório, Edinho Silva, negou a informação e a declaração de Chicão foi tida pelo delegado Rosa como “desmentida”.

O relatório está em anexo, abaixo.

Arquivo

indicamento_haddad.pdf