Até quando?, por Fernando Horta

Até quando?

por Fernando Horta

Eu queria dizer, como dizem seus inimigos da esquerda e da direita, que a condenação de Lula começou em 2003. Isto me seria mais fácil. Seria reconhecer que eu confiei numa pessoa venal, num líder que cometeu crimes para chegar onde chegou. Acontece que nem eu, nem você, e muito menos qualquer dos quatro perversos juízes que o julgaram têm provas.

Diante disto, digo que o golpe contra Lula começou quando José Eduardo Cardoso deixou de usar seus atributos de ministro de Estado para se manter-se num silêncio ingênuo, quase vil. A condenação de Lula começou em cada centavo pago pelo governo como propaganda à Rede Globo. Começou quando Dilma pensou que a Lava a Jato era desenhada para enfrentar a corrupção, e como ela não era corrupta não precisava se preocupar. A condenação de Lula começou quando nas Faculdades de Direito deixaram de ler Victor Hugo para lerem Alexandre de Moraes.

Sempre que uma tragédia acontece, vários fatores concorrem para ela. Aqui não é diferente. A armadilha criada contra Lula começou quando, após a descoberta da espionagem norte-americana sobre o Brasil e a Petrobrás, o governo brasileiro não interrompeu por 90 dias todos os acordos e programas de cooperação até que a ABIN e o Itamaraty fizessem um rastreio de tudo o que acontecia e a presidente não sabia. A condenação de Lula começa quando ele mesmo, Lula, resolve dar a uma instituição de caráter autoritário o direito de escolher seu chefe. O MP “empoderado” não tem qualquer forma de accountability e se mostra uma instituição antirrepublicana.

Aliás, temos larga tradição em instituições não republicanas. O laço no pescoço do ex-presidente começou quando as escolhas para o STF e para os tribunais superiores e federais foram feitas sem o devido cuidado. Formou-se uma casta de pessoas que são malformadas técnica ou moralmente, quando não as duas. E que nos custam milhões, ainda. O que aconteceu com Lula é fruto do cinismo de nossas elites, da fraqueza de nossas instituições, mas também da ingenuidade dos nossos líderes. Já nos primórdios da Lava a Jato, vários analistas indicavam que ela era desenhada para atacar o Partido dos Trabalhadores e isto significava que Lula seria o alvo maior.

Eu poderia ficar horas nomeando erros e concessões no exercício do poder que redundaram na situação atual. Isto não seria nem correto nem de alguma valia. Pode-se argumentar que hoje é bastante mais fácil compreender os erros passados. O observador no ponto futuro tem inegável vantagem. Meu pai dizia que as pessoas sempre sabem como as coisas “deveriam ter sido feitas”. Peito para fazer, aí é outra história. Ocorre que não foram poucas as vozes no Brasil a avisar sobre o republicanismo infantil que vinha sendo a marca das últimas gestões. Além, é claro, da experiência histórica de todos os governos de esquerda no mundo. Não há um só exemplo no século XX, de governos comprometidos com a ideia da justiça social que tenham sido deixados republicanamente governar. Todos sofreram com espionagem, sabotagens, ataques diretos, incitação à revolta e tudo mais. Não seria o Brasil o primeiro caso.

 A questão agora não é mais olhar para o passado. A questão é perguntar a Lula, Dilma, os senadores da esquerda, deputados, juízes progressistas e até mesmo militares nacionalistas quando diremos basta? Ainda não viram que nossas instituições não têm nada mais a oferecer ao país? Não viram que a “resistência” conforme pensada ainda em 2014 foi um retumbante fracasso? Quando será “demais”? Hoje líder do PT e do MST foi assassinado na frente do filho de seis anos, na Bahia. Não foi latrocínio. Quando decidiremos que violência das instituições está há muito sem controle? Vamos esperar que Gleisi Hoffmann, Haddad e todos os líderes com alguma relevância política sejam presos? Vamos esperar que aumentem a agressão aos militantes de esquerda? A greve já é ilegal, já não existe mais qualquer proteção ao trabalho, as universidades estão sendo censuradas … o que mais falta?

Condenaram Lula por “atos executivos não nominados”, comprovaram isto por meio de um imóvel que o presidente teria a “propriedade de fato” e o condenaram a 12 anos por lavagem de dinheiro que ele nunca recebeu. É como dizer que o sol não existe e que a Terra é plana e como vestindo a toga o estrume se torna divino, nem mesmo o cheiro se pode reclamar.

Márcio Matos de Oliveira tinha 33 anos. Está morto. Desde o golpe um sem número de militantes, líderes e participantes de movimentos sociais têm sido mortos. Até quando? Até quando vamos ver vídeos de Zanin sobre o “próximo recurso”? Já não bastou o fiasco de José Eduardo Cardoso? Em alguns dias Lula deverá ser preso. E ninguém dirá “basta”? Em fevereiro a reforma da previdência será votada. Sem os militares, o judiciário e os policiais. E ninguém dirá “basta”? Depois virá o parlamentarismo, a cláusula de barreira e a entrega completa do pré-sal e da Petrobrás. E ninguém?

Estou cansado da gritaria do “não vai ter golpe”, da auto piedade que apela para a moral histórica ou do convencimento de que “estamos do lado certo”. “Eu não queria estar do lado que me venceu” … bobagem. O púrpura ainda é o melhor sudário.