“Não gostamos desse tipo de emprego”, disse Villas Bôas sobre Exército na segurança pública

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O comandante do Exército brasileiro falou sobre o trabalho de militares na segurança pública em audiência pública no Senado, ano passado 
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(Foto ABr)
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Jornal GGN – Em junho de 2017, o comandante do Exército, general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, disse que os servidores militares não gostam de atuar na segurança pública.
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A declaração foi feita durante uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores do Senado sobre soberania nacional e projetos estratégicos do Exército. O comandante citou a atuação do Exército na patrulha da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, com cerca de 130 mil habitantes.
“Um dia me dei conta. Os nossos soldados atentos, preocupados – são vielas –, armados. E passando crianças, senhoras, eu pensei: ‘Estamos aqui apontando arma para a população brasileira’. Nós somos uma sociedade doente. E lá ficamos 14 meses. Do dia em que saímos, uma semana depois tudo havia voltado ao que era antes. Então, temos que realmente repensar esse modelo de emprego, porque é desgastante, perigoso e inócuo”, comentou.
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Na ocasião, o comandante contou que, em 30 anos, o Exército foi empregado na segurança pública 115 vezes. O único estado onde não houve a atuação foi São Paulo. “Nós não gostamos desse tipo de emprego, não gostamos”, refletiu o general.
Meses antes da audiência pública, o governo havia pedido para o Exército fazer uma varredura nos presídios de Rio Branco, capital do Acre, que haviam passado por rebelião o início daquele ano, causando uma série de críticas, ou a tal “celeuma” que Villas Bôas comenta no início do vídeo que edita parte da sua fala para o Senado.
O emprego das Forças Armadas em atividades da segurança pública é permitido pela Constituição Federal desde que feito por uma ordem do presidente da Repúblicas em casos que classifique como grave perturbação da ordem e quando as forças convencionais de segurança estiverem esgotadas.
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As Forças Armadas são um ensaio de intervenção no Rio, por Luis Nassif

 

sex, 16/02/2018 – 17:09 – Atualizado em 17/02/2018 – 08:24 – Luis Nassif

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Aparentemente, a estratégia por trás da intervenção militar no Rio de Janeiro é a seguinte:

  1. Aprofundar a intervenção, com o governo federal assumindo outras setores do governo estadual, especialmente o controle do orçamento estadual.
  2. Tirar o governo Temer da defensiva atual e dotá-lo de poderes políticos extraordinários, em nome do combate à violência.
  3. Contaminar a opinião pública com as ameaças de perda de controle para o crime organizado, permitindo ampliar o estado de exceção para outros estados, sempre tendo como álibi a ampliação da violência.
  4. Transformar a perda de controle para o crime organizado no novo bicho papão, capaz de substituir o clima de comoção nacional da luta contra a corrupção.

A fundamentação da intervenção

A intervenção militar no estado do Rio de Janeiro se baseou no inciso 3 do artigo 34.

Diz o artigo 34:

A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:

I – manter a integridade nacional;

II – repelir invasão estrangeira ou de uma unidade da Federação em outra;

III – pôr termo a grave comprometimento da ordem pública;

IV – garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes nas unidades da Federação;

V – reorganizar as finanças da unidade da Federação que:

a) suspender o pagamento da dívida fundada por mais de dois anos consecutivos, salvo motivo de força maior;

b) deixar de entregar aos Municípios receitas tributárias fixadas nesta Constituição, dentro dos prazos estabelecidos em lei;

VI – prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial;

VII – assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais:

a) forma republicana, sistema representativo e regime democrático;

b) direitos da pessoa humana;

c) autonomia municipal;

d) prestação de contas da administração pública, direta e indireta.

e) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 29, de 2000) A intervenção militar se baseou no inciso 3.

A estratégia do governo será ampliar, com base no inciso 5. Ou seja, a intervenção militar foi a forma destrambelhada de preparar-se para uma intervenção maior, na qual a União assumirá também o controle das contas públicas.

Outras intervenções

Provavelmente, se conseguir os votos para as reformas pretendidas, o governo Temer apelará para a intervenção branca, figura que foi usada pelo governo FHC em Alagoas.

Na ocasião, o governador renunciou e o vice assumiu e nomeou um coronel para Secretário da Fazenda.

No Rio de Janeiro, o maior defensor da intervenção federal junto ao governo Temer tem sido justamente o vice-governador Francisco Dornelles. E a maior propagadora do caos foi a Rede Globo.

Com a intervenção branca, não haveria interrupção das votações das reformas.

Também são possíveis intervenções via convênio, adotada pelo ex-Ministro da Justiça Nelson Jobim.

No caso do Rio de Janeiro, o mais provável será uma intervenção branca geral. E, como o governo federal terá que chegar lá com um caminhão de dinheiro, não haverá como abrir mão de um controle geral das finanças.

Um observador bem situado do governo Temer explica: como se poderá impor a ordem em um Estado em que a polícia não está recebendo salários e o Judiciário chega a receber três vezes o teto?

A estratégia Temer

Evidentemente, o episódio cai como uma luva para uma releitura do governo Temer. Segundo esse observador, o sucesso dependerá da sua implementação.

No mundo ideal de Temer, a intervenção ganharia apoio popular, mais ainda em função do terrorismo implantado pela Globo. Junto virá a criação do tal Ministério da Segurança Pública, criaria as condições para o governo Temer cavalgar novas medidas de exceção, maneira de tirá-lo da defensiva atual e provê-lo de mais poder.

Conhecendo-se a profunda incompetência do governo Temer, é possível que seja mais um tiro na água.

De qualquer modo, há três motivos para o não protagonismo do Ministro da Justiça Torquato Jardim:

  1. O fato de admitir que nada entende de segurança pública.
  2. O indulto de Natal, que o queimou junto ao grupo de Temer.
  3. Provavelmente sua não aprovação a esse semi-golpe político.